terça-feira, 28 de abril de 2020

O modernismo chega a Atibaia

Aldo Bonadei - Paisagem de Itanhaém
Óleo sobre tela - 46 x 56,5 cm - 1943 






















Há exatos setenta anos Atibaia recebia obras originais dos maiores artistas modernistas da época e hoje ícones da cultura nacional: Guignard, Oswald de Andrade Filho, Franz Weissmann, Cicero Dias, Di Cavalcanti, Flávio de Carvalho, Flexor, Anita Malfatti, Aldemir Martins, Sergio Milliet, Walter Levy, Livio Abramo, Carlos Scliar e Oswaldo Goeldi são alguns dos participantes. A “Primeira Exposição Coletiva de Pintura de Atibaia” ocorreu no saguão do recém-inaugurado Cine Itá.  Promovido por André Carneiro, sua irmã Dulce e Ruth Diem, a exposição foi inaugurada dia 28 de junho de 1950. Um dos organizadores foi Aldo Bonadei, encarregado da curadoria.

Aldo Cláudio Felipe Bonadei (1906 - 1974) foi pintor, designer, gravador, figurinista e professor. A partir de 1935, integra o Grupo Santa Helena, com Mario Zanini, Rebolo, Pennacchi, Alfredo Volpi, entre outros. Pinta principalmente naturezas-mortas e paisagens urbanas e suburbanas de São Paulo, temas que se tornam constantes. Destaca-se em suas obras do período o diálogo constante com a obra de Paul Cézanne, no tratamento da cor e no uso da pincelada. Na década de 1940, leciona pintura e trabalha como figurinista, criando modelos para vestidos e desenhos para bordados. Em seguida, sob o impacto da abstração interessa-se pelo cubismo e a tensão entre o figurativo e o abstrato, que permanece em sua produção posterior. O interesse por diferentes áreas leva-o a desenvolver atividades em poesia, moda e teatro. O artista tem importante atuação, entre os anos 1930 e 1940, na consolidação da arte moderna paulista sendo um dos pioneiros no desenvolvimento da arte abstrata no Brasil. Aldo Bonadei participou ativamente do jornal literário "Tentativa", de Atibaia, ilustrando poemas e contos com gravuras produzidas especialmente para o jornal. De sua amizade com André Carneiro nasceu à proposta de organizar na cidade esta exposição, trazendo para cá os mais importantes artistas modernistas da época. Muitos em inicio de carreira.

Em maio acontece a 7ª Semana André Carneiro e na programação uma exposição virtual recriando a “Primeira Exposição Coletiva de Pintura de Atibaia”. A exposição estará no site da Câmara, organizado pelo Departamento de Comunicação da Câmara de Vereadores de Atibaia e do jornalista Luiz Gonzaga Neto. Acompanhe.

sábado, 25 de abril de 2020

Em maio a 7a Semana André Carneiro















De 09 a 16 de maio acontece a 7ª Semana André Carneiro. Esse ano o evento ficará marcado pela polêmica e pelo inusitado. Tempos de turbulências causados por uma pandemia sem previsão de como, e quando terminar. Tempos de cidades vazias, como antecipou André Carneiro no conto “A Espingarda”, de 1966. O ano começou polêmico, quando fomos surpreendidos por um edital lançado pela Secretaria de Cultura tentando alterar a forma de organização da Semana André Carneiro. Detalhe: o edital foi lançado sem consultar seus realizadores, ignorando todo histórico de realizações ocorridas nas seis edições anteriores, de forma autoritária e sem conhecimento de causa. Saiba mais aqui. A finalização desse imbróglio foi à apresentação de somente um projeto no edital de chamamento. Projeto recusado pela equipe de avaliação por descumprir suas exigências. Enfim, tanta coisa pra nada! A polêmica também fez parte de outro evento ocorrido há setenta anos que fará parte da programação desta 7ª edição: a “Primeira Exposição Coletiva de Pintura de Atibaia”. Evento sem precedentes no país, quando uma pequena cidade do interior abrigou parte importante da história da Arte Moderna Brasileira. Aqui foram expostos originais de Guignard, Oswald de Andrade Filho, Franz Weissmann, Cicero Dias, Di Cavalcanti, Flávio de Carvalho, Flexor, Milton Dacosta, Anita Malfatti, Aldemir Martins, Quirino da Silva, Maria Leontina, Sergio Milliet, Walter Levy, Livio Abramo, Odeto Guersoni, Carlos Scliar, Oswaldo Goeldi, Athos Bulcão e outros. Promovido por André Carneiro, sua irmã Dulce e Ruth Diem, a exposição foi inaugurada dia 28 de junho de 1950, contando com a presença e a obra de todos os organizadores: Aldo Bonadei, Geraldo de Barros, Lothar Charoux e João Luiz Chaves, além de pinturas do próprio André e fotografia de sua irmã Dulce. A mostra aconteceu no saguão do recém-inaugurado Cine Itá, marcando o inicio do “Clube de Cinema de Atibaia”, entidade jurídica também criada por André Carneiro e demais participantes do jornal literário “Tentativa”. No Clube de Cinema eram exibidos filmes de arte e debatidos pelos participantes no final de cada sessão.

O próprio histórico da Arte Moderna no Brasil é marcado pela polêmica, desde a primeira Exposição de Pintura Moderna ocorrida por iniciativa de Anita Malfatti, em 1918. Exposição que passou a ser considerado um marco na história da arte moderna no Brasil e “estopim” da Semana de 1922. Não é difícil prever o impacto dessa exposição para os padrões estéticos conservadores da época. O escritor Monteiro Lobato foi seu maior crítico e contra ele arregimentam jovens poetas e escritores como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia e outros, que organizariam mais tarde a Semana de Arte Moderna de 22. A polêmica também fez parte de outro acontecimento que marcou a arte moderna no Brasil, além da própria Semana de 22: O “Salão Revolucionário”, como ficou conhecido a 38ª Exposição Geral de Belas Artes, ocorrido em 1931, no Rio de Janeiro, em razão de ter abrigado, pela primeira vez artistas de perfil moderno e modernista. Participam do Salão artistas de diferentes gerações, mas todos ligados de alguma forma às pesquisas da arte moderna: Tarsila do Amaral, Victor Brecheret, Anita Malfatti, Ismael Nery, Cicero Dias, Portinari, Pedro Luiz Correia de Araújo, Vittorio Gobbis e Guignard. Outro evento marcado pela polêmica aconteceu em 1944, em Belo Horizonte: A "1ª Exposição de Arte Moderna", promovida pelo então prefeito Juscelino Kubitschek no edifício Mariana, que levou para a cidade uma série de obras de artistas modernistas de pelo menos três gerações, provocando “frisson” semelhante ao de 1922 - com direito a protestos raivosos na imprensa e ataques aos quadros dentro da galeria. Essa exposição foi considerada uma espécie de "continuação" da famosa Semana de Arte Moderna de 1922, ocorrida em São Paulo. A "1ª Exposição de Arte Moderna" de Minas Gerais surgiu quando o prefeito Kubitschek decidiu convidar Alberto da Veiga Guignard para realizar um curso de arte na cidade. Guignard sugeriu que uma mostra de artistas modernos fosse promovida como "recepção". Juscelino viu na ideia uma oportunidade de apresentar aos intelectuais paulistas e cariocas o conjunto arquitetônico da Pampulha, criado pelo Niemeyer. Em 1950 André Carneiro e César Mêmolo Junior viajaram a Minas Gerais para entrevistar Guignard e colheram informações sobre o curso de arte que o artista ainda ministrava na cidade. A matéria foi publicada no jornal literário Tentativa número 8, página 5. Veja aqui. Ao considerar as enormes diferenças existentes entre os meios de comunicação da época e consequente tempo de difusão das informações fica evidente a ousadia do André Carneiro, e demais artistas envolvidos, em trazer para Atibaia o que havia de mais atual na época. Em 1944 os modernistas ainda causavam polêmicas e a exposição de Atibaia ocorreu em 1950. A maioria dos artistas presentes na exposição de Atibaia eram os mesmos que participaram das demais exposições citadas acima, apresentando obras originais que, como dizia André Carneiro, atualmente poucas instituições culturais teriam recursos para sequer pagar o seguro das obras.  E como não poderia deixar de ser, aqui em Atibaia a exposição também causou polêmica. Os artistas acadêmicos locais, ofendidos com o sucesso da exposição, reagiram criando seu próprio evento: A “Primeira Exposição Conjunta de Pintura, em Atibaia”, que aconteceu no salão do Clube São João FC, meses mais tarde. Despeito a parte, a “Primeira Exposição Coletiva de Pintura de Atibaia” ganhou notoriedade. Segundo a pesquisa de Mauricio Carneiro, a exposição realizada aqui seguiu meses depois para a cidade de São João da Boa Vista- SP acompanhada de uma caravana cultural que saiu de Atibaia liderada por André Carneiro. Na ocasião André realizou a palestra “Para Compreensão da Arte Moderna”, evento que aconteceu no Teatro Municipal de São João da Boa Vista, prédio histórico do município e palco de inúmeros eventos de grande valor artístico para o interior paulista.

Em razão da pandemia, e da impossibilidade de aglomerações, a programação prevista para a 7ª edição da Semana André Carneiro foram alteradas. A ideia inicial era realizar uma exposição com reproduções de obras que integraram a “Primeira Exposição Coletiva de Pintura de Atibaia”, recriando o clima e o valor estético do evento. Infelizmente não mais será possível. Optamos então em transformá-la numa mostra virtual, que terá apoio do Departamento de Comunicação da Câmara de Vereadores de Atibaia e do jornalista Luiz Gonzaga Neto. A palestra preparada pelo psiquiatra e psicoterapeuta Paulo Urban, sobre o amigo André Carneiro, também foi suspenso pelos mesmos motivos. Além da exposição virtual, manteremos o lançamento de uma versão piloto da 6a edição do “Caderno da Semana” e realizaremos uma “live”, com mediação de Juliana Gobbe e convidados. Entre eles Gilberto Sant’Anna, Mauricio Carneiro, Paulo Urban, Carlos Alberto Pessoa Rosa, Márcio Zago e outros. Ela acontecerá dia 09 de maio, sábado, às 20h pela página de facebook da Semana André Carneiro. Dessa forma, embora com uma programação modesta, não interromperemos sua sequencia. A “live” terá também a intenção de cooperar com o Asilo São Vicente de Paula, que esse ano completa noventa anos de existência, abrigando certa de cinquenta anciãos. Maiores informações serão disponibilizadas nas próximas horas. A 7ª Semana André Carneiro tem a realização do Instituto de Arte e Cultura Garatuja. Participe!

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Depoimento da colunista Ercília Bacci sobre André Carneiro

Na 6a edição da Semana André Carneiro, que ocorreu em maio de 2019, o destaque foi os setenta anos do jornal literário Tentativa. Para comemorar a data foi realizado um encarte, distribuído gratuitamente nas páginas do jornal O Atibaiense. Abaixo o texto enviado pela colunista Ercília Bacci.


No Casarão Julia Ferraz, em 21/07/2007, 
André Carneiro autografa “Quânticos da Incerteza” 
Foto de Ercília Bacci
















A “Volta ao Mundo” do atibaiense André Carneiro 

O livro “Quânticos da Incerteza” de André Carneiro incentivou-me, num passado recente, a entender a caminhada do grande intelectual atibaiense. Eu o conhecia, como se conheciam as pessoas na pequeníssima Atibaia, de poucos habitantes, na década de 1950. Todos sabiam onde residia determinada pessoa, quem eram os seus familiares, os seus afazeres. Era comum o cumprimento nas ruas, com o bom dia, boa tarde...Permitiu-me essa obra organizado por Osvaldo Duarte, com a coordenadoria editorial de Araceles Stamatiu, lançado dia 21 de julho de 2007, no Casarão “Júlia Ferraz”, na administração do prefeito José Roberto Trícoli, não só entender um pouco mais. André Carneiro e suas obras no campo das artes, literatura, cinema, fotografia, psicologia, vasta bibliografia. Passei a questionar por que Atibaia demorou tanto em conhecê-lo? Merecedor de reverências por parte de ícones da cultura do Brasil e exterior?

André Carneiro era um homem elegante. O comercio de ferragem da família, na Rua Benedito de Almeida Bueno, a “Casa Recaredo”, referenciava a seu pai Recaredo Granja Carneiro. Surpreendeu a todos da cidade quando a família ergueu um alto muro em frente à própria residência, localizada ao lado do estabelecimento comercial. E isso deu o que falar! Críticas surgiram sobre essa atitude, e ninguém tendo nada a ver com isso! Nascido em Atibaia dia 9 de maio de 1922, onde fez os estudos iniciais, rumou a São Paulo, foi aluno interno do Colégio Marista. Volta para a cidade natal, cria com César Mêmolo Jr. a Biblioteca Pública de Atibaia repassada posteriormente à Prefeitura. Fundou o Clube de Cinema e promoveu com Ruth Diem e sua irmã Dulce encontros e exposições culturais, assim trouxe para Atibaia intelectuais, artistas como Aldemir Martins, Anita Malfatti, Oswald de Andrade, Di Cavalcanti e outros. E eu, nascida e criada em Canedos, muito jovem, sinto que por aí estava uma das barreiras de não ter conhecido mais cedo o intelectual que se projetava. Com a família, atrelada ao trabalho de meu pai, alambiqueiro, que se tornou comerciante, chegamos de mudança em Atibaia em meados da década dos anos 1956. Fiz curso Técnico de Comércio, mas voltada à escola pública, a Major Juvenal Alvim e cursar o Normal. Havia vestibulinho para seu acesso. E assim aconteceu.

Com Dulce Carneiro e César Mêmolo Jr, fundou o jornal “Tentativa” em 1949, tendo colunistas e colaboradores ilustres, personagens do meio artístico/cultural do cenário nacional. Nesse período, atuou em jornais locais “O Atibaiense” e a “Gazeta de Atibaia”, escreve o primeiro livro, “Ângulo e Face” trava contatos com Sérgio Milliet, Cassiano Ricardo, Murilo Mendes, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade. Nos anos seguintes faz literatura, fotografia e cinema tendo sido premiado no Brasil, França, Holanda Itália e Inglaterra. Na literatura, tem obras publicadas na Espanha, Argentina, França, Suíça, Alemanha, Bélgica, Inglaterra, Itália, Bulgária, Suécia, Rússia, Japão e Estados Unidos. Recebeu inúmeros prêmios de relevância mundial. Foi membro de sociedades artísticas e científicas, integrou a Parapsychogical Association, a Science Fiction and Fantasy e a Academie Ansaldi, de Paris. Publicou o Manual de hipnose e O mundo misterioso do hipnotismo, no gênero ensaio. Com o título “A Geração 45 - Através do Jornal Tentativa”, o periódico “Tentativa” tornou-se arquivo público do Estado de São Paulo, do então governador Cláudio Lembo, em 2006, em  publicação fac-símile, realizada pela Prefeitura de Atibaia, com suporte técnico e parceria do Arquivo do Estado de São Paulo.

Em uma das páginas de abertura, da primeira edição do “A Geração 45 - Através do Jornal Tentativa”, André Carneiro comenta: “Para quem ama e tem vivido a arte literária (e outras), ‘Tentativa’ foi isso: para mim, um sonho inverossímil realizado. Seria o mesmo que falar de um grande amor e contar dos percalços para atingir a glória da conquista, aquele beijo maravilhoso que o cinema americano colocava antes do ‘the end”. Tratando da informática presente no Brasil, disse André Carneiro: “Sou um usuário e ignorante cibernético. Ainda não estou convencido da difusão do livro virtual. E o que isso tem a ver com o ‘Tentativa’? Tem a ver que o nosso jornal literário foi um empreendimento extraordinário na época que pequenas cidades do interior não tinham possibilidades de conseguir colaboração e difusão como conseguimos: Aldemir Martins fez o título, Oswald de Andrade a apresentação, as molas iniciais para o sucesso... Afinal, o César e eu morávamos em Atibaia, minha rua era de terra, São Paulo ficava a três horas de distância, nossa ingenuidade, junto de nossa paixão abria caminhos... Nós não sabíamos que Graciliano Ramos não dava entrevistas, mas lá fomos ao Rio e conseguimos – e teve grande repercussão. Carlos Drummond de Andrade nos recebeu e logo foi perguntando como ia o Leão Profeta?” Ele recebia o jornal “O Atibaiense” e sabia novidades da cidade. “Um jornal de Lisboa publicou uma crônica que afirmava, em Atibaia, uma pequena cidade perto de São Paulo, havia um movimento literário muito superior ao de Lisboa. Pura ilusão portuguesa, mas isso nos enchia de orgulho”, disse André Carneiro.  Em março de 2014, André Carneiro, aos 92 anos de idade, esteve em Atibaia para receber homenagem durante a realização da 1ª edição da Semana André Carneiro, vindo a falecer em novembro do mesmo ano. Inseriu-se no mundo das artes, da literatura, e o caminho inicial foi Atibaia. Na orelha do livro “Quânticos da Incerteza” há uma referência: Volta Ao Mundo. Partida: Atibaia, 1959. Daí a extensa bibliografia de autoria de André Carneiro: poesias, prosas, antologias poéticas e de contos, ensaios, críticas, filmografias, roteiros, obras adaptadas ao cinema ou TV - na Imensa Volta Ao Mundo, através da arte e literatura.

Memória é nevoeiro,
Tento a raiz do intento
e me perco.
Fato é átomo
cercado de fogo fátuo.
Cada reflexo
fica impresso
nos agoras antigos.

A “Semana André Carneiro”, criada em 2014, parceria entre o “Instituto de Arte e Cultura Garatuja” e a Prefeitura da Estância de Atibaia; com a inauguração do “Centro Cultural André Carneiro”, na Rua José Lucas, 28, em 17 de novembro de 2018, na administração Saulo Pedroso, deram amplitude de conhecimento às obras do representativo artista de Atibaia.  Márcio Zago, fundador do Garatuja, é o curador da Semana André Carneiro.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Volta ao Mundo com André Carneiro

Na 6ª edição da Semana André Carneiro (2019) foi exposto cerca de cinquenta capas de livros e revistas que continham contos, poemas ou romances publicados em diversas partes do mundo pelo autor homenageado. Abaixo algumas delas. O texto de apresentação foi do editor Silvio Alexandre.

Volta ao Mundo com André Carneiro

André Carneiro é o autor de ficção científica brasileira com maior destaque internacional. É considerado o melhor autor e referência de literatura fantástica na América Latina. Autor de textos sofisticados e perturbadores, de abordagens raras e estilo sempre inovador. Foi através da sua obra que a ficção científica do Brasil ganhou notoriedade no exterior. Foi o primeiro escritor da América do Sul a integrar a prestigiosa Science Fiction and Fantasy Writers of America, entidade profissional de escritores americanos. Foi condecorado pelo governo francês com a Medalha de Prata da Cidade de Paris, da Societe D’Education et Encouragement, em 1950, por suas atividades de intercâmbio cultural e cooperação artística entre Brasil e França. Em 1951, é feito “Membre D'honneur” da Academie Ansaldi, de Paris. Seu conto mais conhecido no exterior é "A Escuridão", onde gradativamente o planeta inteiro é tomado por uma cegueira coletiva, tema que foi também explorado muitos anos depois pelo escritor português José Saramago, em seu "Ensaio sobre a cegueira". O escritor e crítico canadense A.E. Van Vogt escreveu que "A Escuridão" (“Darkness”, em inglês) não só “é um dos maiores trabalhos escritos na ficção cientifica, mas também da literatura mundial. Não é apenas ficção científica de ação superficial, mas literatura no seu melhor sentido. André Carneiro merece a mesma audiência de um Kafka ou Albert Camus”. Já o consagrado escritor Arthur C. Clarke ressaltou: “Li André Carneiro de um só fôlego. É impressionante como ele consegue fazer boa literatura”. É muito conhecido na Suécia, seus contos foram publicados no final dos anos 1970 pela revista Jules Verne Magasinet, criada em 1940 – a única revista do mundo de ficção científica durante uma época. A influente editora sueca Delta Förlags, publicou o primeiro romance de André Carneiro, Piscina Livre publicado simultaneamente no Brasil, pela editora Moderna, em 1980. O poeta Carlos Drummond de Andrade afirmou que “em Piscina Livre, André exercita de maneira brilhante a originalidade do ficcionista”. Foi publicado nos seguintes países: Alemanha, Argentina, Áustria, Bélgica, Cuba, Espanha, Estados Unidos, França, Hungria, Inglaterra, Itália, Japão, México, Peru, Polônia, Portugal e Suécia.

Silvio Alexandre

















segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

André Carneiro e as oficinas de Literatura

André Carneiro sempre esteve envolvido com as oficinas de literatura. Quando deixa São Paulo, em 1999, leva essa prática para Curitiba - cidade onde viveu seus últimos anos. Em 2001 passa a integrar a Confraria dos Escritores de Ficção Científica, de Curitiba, depois de realizar uma oficina a convite de seus fundadores. A saber: Bertoldo Schneider Jr., Clair Nery Cardoso, Sílvio Xavier e Carlos Machado. As reuniões aconteciam no campus da Universidade Tecnológica Federal do Paraná e tinham como dinâmicas reuniões mensais onde ocorria a leitura da obra de determinado autor, integrante do grupo, acrescidos dos comentários dos demais. Os principais objetivos das oficinas eram a qualidade e o aperfeiçoamento na arte da escrita, além do incentivo à leitura, à escrita e ao livre pensar. Segundo Mustafá Ali Kanso, amigo e integrante da oficina “...a presença de André Carneiro representava, invariavelmente, um insight. Uma inspiração. Ele materializava a máxima de William Yeats, não tendo a mínima pretensão de encher cântaros. Apenas o singelo propósito de encadear uma chama. E que cada um levasse seu combustível.” A partir de 2011, a Confraria dos Escritores de Ficção Científica passa a chamar-se Núcleo de Literatura e Cinema André Carneiro. O coordenador no início foi o próprio André Carneiro, secretariado por Carlos Alberto Machado. O referido secretariado, em 2007, passa a ser exercido por Mustafá Ali Kanso, o mesmo que, com o falecimento de André Carneiro, assumiu a coordenação. Mustafá esteve presente na primeira edição da Semana André Carneiro proferindo a palestra “Dimensões Criativas de André Carneiro”. Mustafá faleceu em 2017.  Das oficinas realizadas em Curitiba saíram textos premiados em concursos nacionais e que têm sido publicados em diversas antologias ao lado de grandes nomes da ficção científica nacional. O Núcleo de Literatura e Cinema André Carneiro encontra-se em plena atividade.

Saiba mais: Núcleo de Literatura e Cinema André Carneiro

Lançamento da primeira coletânea publicada 
pelo Núcleo de Literatura e Cinema André Carneiro, 
Bienal do Livro de São Paulo - 2010.

















domingo, 16 de fevereiro de 2020

Polêmica na realização da 7ª Semana André Carneiro


Este ano a 7ª edição da Semana André Carneiro será marcado pela polêmica. De um lado a continuidade do trabalho iniciado pelo criador, curador e mantenedor do evento. De outro a tentativa por parte da Secretaria de Cultura de Atibaia de realizar o evento isoladamente, por conta própria, rompendo o histórico de realizações existentes num trato inicial estabelecido em 2014 com a própria Secretaria de Cultura. Segundo esse acordo (informal) a Semana André Carneiro seria realizada em parceria entre a Secretaria de Cultura e o proponente e curador do evento, que disponibilizaria a estrutura física e operacional do Garatuja para sua realização. As seis edições ocorridas foram totalmente realizadas pelo curador e pelo Garatuja, tendo apoio da Prefeitura. A parte acordada inicialmente para desenvolvimento futuro, relativa à Secretaria de Cultura, incluía outras atividades paralelas como concursos, convites e prêmios com intenção de fomentar a participação de outros artistas no evento. Fato que nunca aconteceu. A partir desta edição, segundo a Secretaria de Cultura, o evento será realizado pelo ganhador de um edital elaborado por ela e julgado por ela. Segundo a última errata publicada na Imprensa Oficial, o julgamento será feito por dois servidores da Secretaria de Cultura e um Conselheiro do Compocat, ou seja, continuam ignorando a paridade, item básico e primordial nas ações democráticas. Lembrando que os representantes do poder público também são Conselheiros do Compocat. Detalhe: O edital foi formulado sem conhecimento prévio do criador e curador do evento, dos demais colaboradores, e pior, sem a participação do Conselho, conforme diz a lei complementar 798, que Institui o Conselho Municipal de Política Cultural de Atibaia. Reforçando que, todos os editais, assim como todas as prestações de contas e respectivos acompanhamentos de projeto são elaborados “em conjunto” com o Conselho. É um direito de a sociedade civil acompanhar e fiscalizar o que esta sendo realizado com os recursos públicos, e principalmente garantir a qualidade do conteúdo das propostas. Como dito anteriormente, a Secretaria de Cultura formulou sozinha o edital e, pressionada, submeteu sua aprovação ao Conselho de Cultura, numa votação onde o principal interessado, que era o curador, não estava presente para se defender. Em vista das desinformações reinantes o edital foi aprovado e continua valendo. Mais que o questionamento em relação ao edital (que, diga-se de passagem, é tão precário que já incluiu duas erratas após a primeira publicação), o que se questiona é a forma autoritária como foi tomada essa decisão. O baixo custo do projeto não justifica a criação de um edital, podendo ocorrer como contratação direta, fato que também demonstra pessoalidade na gestão pública, uma vez que a mesma conduta não se aplica a outras situações de igual valor, levando a pensar em intimidação através da prática burocrática. Diante disso a 7ª Semana André Carneiro segue com a possibilidade de acontecer com dois eventos paralelos. De um lado, a continuidade da pesquisa sobre uma importante ação cultural ocorrida no município, incluindo-se a confecção do Caderno da Semana AC, da programação previamente esboçada, contando com palestra, exposição e exibições. De outro, a continuidade do edital apresentado pela Secretaria de Cultura que, mais do que expressões artísticas e conhecimentos sobre o tema, revelará o caráter e a ética dos seus participantes.

Clique aqui para conhecer a Carta de Repúdio e a prestação de contas.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Vinicius de Moraes em Atibaia



Caricatura de Osvalter.

Na 6ª edição da Semana André Carneiro, que aconteceu em 2019, destacamos os setenta anos do jornal literário Tentativa. Entre os inúmeros admiradores do jornal estava Vinicius de Moraes. De Los Angeles o artista enviou o poema “Balada da Moça do Miramar” especialmente para o jornal. Nesta época Vinicius de Moraes ocupava um posto diplomático como vice-cônsul em Los Angeles, cargo que abandonou em 1950, conforme sugere a carta enviada a André Carneiro em 1949.



Meu caro André
Recebi a Tentativa de vocês, e gostei de tudo. Gostei, sobretudo do entusiasmo com que vocês se atiram à empreitada, dando como resultado um jornal bastante articulado, com mais ar de coisa da metrópole que da província. Parabéns os mais sinceros. Li tudo cuidadosamente. Desde a “Apresentação” de meu amigo Oswald de Andrade, sempre Oswaldiando, até os anúncios da Confeitaria Ayrosa, de Romano & Rodrigues, à Rua José Alvim n0 148. Que vontade de conhecer Atibaia e comer queijadinha na Confeitaria Ayrosa! Com César Mêmolo Junior, você e sua irmã Dulce! Gostei dos poemas dela. Gostei do esforço de vocês, que se multiplica por aí tudo nesse mundo de terra. Tenho uma saudade feroz do Brasil daqui de Hollywood, nesta Nossa Senhora de Los Angeles de Porciúncula. Porciúncula é bem a palavra para esta cidade. Já conhecia muitos de nome, entre os que escrevem para Tentativa. Lembro-me de Ruben Muller, que me mandou excelentes pronunciamentos, por ocasião do meu debate sobre cinema com Ribeiro Couto e seus correligionários sonoros. Mas quero conhecer Aldemir Martins, César Mêmolo Junior, João Batista Conti e Donozor O. Lino, que gostaria se chamasse Nabuco Donozor O. Lino para ser perfeito. Ele que não se ofenda. Tenho uma incrível necessidade de brincadeira e de comunicação. Hollywood é uma cidade provisória e sem perspectiva. Quando eu chegar ao Brasil – espero seja o ano que vem – mande-me um convite urgente para visitar Atibaia, fazer uma conferencia, ler poemas, o que quiserem. Eu vou lhe mandar uns poucos dólares, para vocês me remeterem o jornal regularmente. Faça o que quiser desta carta. E, sobretudo, não parem Tentativa no meio. Gostaria de ajudar vocês no que fosse possível, mesmo com uma pequena contribuição. Escreva, mande suas ordens.
Sinceramente,
Vinicius de Moraes. 660 Sunset Boulevard – California U.S.A.

Balada da Moça do Miramar
Vinicius de Moraes 
(publicado no Tentativa 4)

Silencio da madrugada
No edifício Miramar...
Sentada em frente à janela
Nua, morta, deslumbrada
Uma moça mira o mar.

Ninguém sabe quem é ela
Nem ninguém há de saber
Deixou a porta trancada
Faz bem uns dois cinco dias
Já começa a apodrecer
Seus ambos joelhos de âmbar
Furam-lhe o branco da pele
E a grande flor do seu corpo
Destila um fétido mel.

Mantém-se extática em face
Da aurora em elaboração
Embora formigas pretas
Que lhe entram pelos ouvidos
Se escapem por umas gretas
Do lado do coração.
Em volta é segredo: e móveis
Imóveis há solidão...Mas apesar da necrose
Que lhe corroe o nariz
A moça está tão sem pôse
Numa ilusão tão serena
Que, certo, morreu feliz.

A vida que está na morte
Os dedos já lhe comeu
Só lhe resta um aro de ouro
Que a morte em vida lhe deu
Mas seu cabelo de ouro
Rebrilha com tanta luz
Que a sua caveira é bela
E belo é seu ventre louro
E seus pelinhos azuis.

De noite é a lua quem ama
A moça do Miramar
Enquanto o mar tece a trama
Desse conúbio luar
Depois é o sol violento
O sol batido de vento
Que vem com furor violeta
A moça violentar

Muitos dias se passaram
Muitos dias passarão
À noite segue-se o dia
E assim os dias se vão
Enquanto os dias se passam
Trazendo a putrefação
À noite coisas se passam...
A moça e a lua se enlaçam
Ambas mortas de paixão.

Ah morte do amor do mundo
Ah vida feito de dar
Ah sonhos sempre nascendo
Ah sonhos sempre a acabar
Ah flores que estão crescendo
Do fundo da podridão
Ah vermes, morte vivendo
Nas flores ainda em botão
Ah sonhos, ah desesperos
Ah desespero de amar
Ah vida sempre morrendo
Ah moça de Miramar.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Semana André Carneiro – Prestação de contas


Nós, fundadores do Garatuja, Márcio Zago e Élsie da Costa, durante mais de quarenta anos de atividades artísticas realizamos inúmeros projetos através de repasses públicos com diferentes órgãos gestores: Ministério da Cultura, Secretaria de Estado da Cultura e Prefeituras, além de outras empresas e instituições como Petrobras, IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, etc. Sabemos muito bem a responsabilidade que isso implica. Temos plena consciência do dever de utilizar cada centavo do dinheiro público com responsabilidade e sensibilidade social, num país que sustenta a triste estatística de ter a pior distribuição de renda do mundo. Como artistas, nossa responsabilidade dobra frente a desimportância do tema, para boa parte dos políticos, e consequente escassez de recursos. Daí a preocupação que temos em aproveitar ao máximo os valores repassados. Nossos projetos primam pela qualidade de execução e prestação de contas, trabalho exaustivo desenvolvido principalmente pela Élsie e pela Cida, e testemunhado por outras pessoas que conviveram com nossos trabalhos. São inúmeros relatórios, tabelas financeiras, documentos e registros que compõe o infinito trabalho burocrático. Enquanto “Ponto de Cultura” fomos escolhidos entre 300 entidades do estado de São Paulo para falar justamente da prestação de contas, num encontro estadual de avaliação do programa. No ano passado o projeto “Garatuja – 35 Anos de Arte e Cultura de Atibaia”, prêmio Proac, recebeu elogios por parte dos gestores estaduais pela execução e prestação de contas, nos classificando como “exemplar”.

Para a realização da Semana André Carneiro, visando sua viabilização, nunca cobrei pelo meu trabalho, não obtendo qualquer tipo de ganho pessoal, nem para mim, nem para o Garatuja. O que seria correto! Ao terminar a sexta edição e iniciar os preparativos para o evento seguinte cabe informar aos interessados como está a parte financeira até aqui. No acordo realizado com o primeiro Secretário de Cultura Luis Otávio Frítolli ficou acordado que o valor não deveria ultrapassar o limite máximo do pagamento direto, que na época era por volta de R$ 8.000,00. Com isso evitaríamos uma série de trabalhos burocráticos para a Secretaria de Cultura dando maior flexibilidade a execução. O valor seria apresentado por mim através de recibo como curador do evento, com previsão de gastos e toda documentação exigida por lei. Nesse custo entraria tudo o que seria gasto no evento como cachê dos artistas, realização de material de divulgação, de material expositivo, confecção dos Cadernos da Semana André Carneiro, construção e manutenção do site (a parte da informática, porque o layout e o conteúdo foi produzido e é mantido por mim gratuitamente) e outros. Durante as seis edições realizadas até aqui, a maioria da infraestrutura das exposições foram fornecido por mim gratuitamente, incluindo molduras e painéis expositivos, além do transporte desse material. Os valores variavam de ano a ano em função da programação, mas a média das seis edições ficou em R$ 3.555,89 por edição. A manutenção do site (mensalidade) é mantida por mim. Foram até aqui 57 meses, no valor de R$ 25,00 por mês, totalizando R$1.425,00, mais R$ 180,00 pelos seis anos de domínio. Reforçando que esse custo não está incluído no pagamento da Secretaria de Cultura. É pago com recurso próprio. Todas as informações aqui postadas estão devidamente comprovadas pelos recibos que possuo.

Nem todas as atividades representadas abaixo tiveram custo financeiro direto, uma vez que houve participação voluntária de amigos e simpatizantes. Foram realizadas até aqui:
8 painéis de ferro e lona que compõe o ExpoRua, que levou informações sobre o artista e o evento a diferentes bairros da cidade
5 manutenções do site (troca de informação).
5 edições do Cadernos da Semana (de tiragem artesanal) que materializam as realizações do evento e são distribuídos gratuitamente aos interessados
Compra e distribuição de vários livros do autor, que se encontravam fora de catálogo. Eles foram doados as bibliotecas públicas municipais, completando o acervo da produção do artista.
11 exposições de diferentes temas como fotografia, capas do “Tentativa”, capas de publicações do exterior, etc
1 apresentação teatral
17 exibições de filmes
Distribuição de vários livros do artista para os interessados
3 performance com temas referente ao artista
1 Mesa redonda na FAAT
4 apresentações musicais
2 Recitais de poesia
1 Publicação do encarte “Tentativa.

Todas essas atividades atingiram cerca de 3.000 pessoas direta e indiretamente, entre estudantes, turistas e demais interessados. Pelas informações acima fica claro a vantagem da Prefeitura nessa parceria. O baixíssimo custo financeiro que cabe a ela, em vista dos resultados obtidos, torna-se quase “criminoso”, no sentido figurado de enfatizar tais atitudes, o lançamento de um edital formulado pela Secretaria de Cultura que tem como único propósito me retirar do evento.  

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Em maio acontece a 7a Semana André Carneiro

Diferente das demais edições, esse ano a Secretaria de Cultura lançou um edital visando trocar os realizadores originais. O edital foi elaborado de forma superficial, com a única intenção de me excluir como curador, numa atitude antiética e autoritária. Em resposta escrevi um texto de repúdio a iniciativa que segue abaixo. Saliento que a intenção é retomar o diálogo com a Secretaria de Cultura a fim de preservar um trabalho que já vinha sendo feito há seis anos. A sexta edição, embora sem a devida divulgação dos resultados (por problemas pessoais), foi um sucesso. Realizamos uma vasta programação que incluiu palestras, exposições e um encarte comemorativo aos setenta anos do “Tentativa”. Em breve iremos atualizar as postagens. De um jeito ou de outro a 7a Semana André Carneiro será realizada por mim e demais pessoas que sempre colaboram. Ao tomar a iniciativa de realizar esse evento destacando um artista que, com sua arte, nunca se furtou a denunciar as arbitrariedades do poder, o que que se exige é coragem. E isso não me falta!

Carta de Repudio ao Edital da Secretaria de Cultura 
7ª Semana André Carneiro

Em 2013 propus à Secretaria de Cultura a realização da Semana André Carneiro. Na época o assunto foi tratado com o diretor de Cultura Charles Giraldi que tinha Luís Otávio Frittoli como Secretário de Cultura. Até então André Carneiro era pouco conhecido em Atibaia, mesmo sendo o artista atibaiense de maior influência na cultura local.  A ideia inicial do evento surgiu num dos encontros realizados na casa do André Carneiro, aqui em Atibaia, quando ele vinha juntar-se a Lina e aos filhos para passar as festividades de final de ano, ocasiões em que era convidado a visita-lo. Nesses encontros tomou corpo a ideia de tornar seu nome mais conhecido em sua terra natal. Tempos depois apresentei uma proposta ao Diretor de Cultura citado acima. Ele, com entusiasmo, acolheu a ideia e apresentou outras sugestões que foram incorporadas ao projeto. Propúnhamos criar um evento anual, para marcar o nome do homenageado, mas que contasse ainda com a participação de outros artistas através de concursos, convites e festivais nas áreas de atuação de André Carneiro: literatura, pintura, fotografia e cinema.

Ficou acordado que eu faria a curadoria do evento, cuidando do material referente à obra do homenageado, pesquisando, escrevendo e produzindo texto, mostras e exposições que tinham como intenção apresentar para a cidade sua rica e diversificada obra, contando sempre com o auxilio de seu filho Maurício Carneiro. A Secretaria de Cultura cuidaria da infraestrutura necessária, do apoio financeiro e da viabilização da participação dos demais artistas. Seria uma parceria entre eu (Garatuja) e a Prefeitura de Atibaia.

A primeira Semana André Carneiro ocorreu dessa forma, em 2014, com ampla participação da Secretaria de Cultura. O Centro de Convenções estava em reforma e o evento teve lugar no palco do CIEM, contando com a presença do próprio André Carneiro que recebeu das mãos do então chefe de Gabinete, Dr. Luiz Benedito Roberto Torricelli (representando o Prefeito Saulo Pedroso) uma placa de agradecimento pelos serviços prestados à cidade. Momento de extrema emoção para o artista e demais presentes. Meses depois André Carneiro faleceu.
No ano seguinte a Semana AC aconteceu no Centro de Convenções Victor Brecheret, mas com novo Secretário de Cultura: Cleber Centini. A mudança ocorrida pouco antes do evento inviabilizou uma participação maior da Secretaria de Cultura na elaboração da programação daquele ano.  Para não parar logo no segundo ano do evento, resolvi fazer a minha parte, organizando o evento sozinho, focando no trabalho do artista, mas contando com apoio financeiro da Prefeitura (R$ 2.000.00). Infelizmente situações semelhantes acorreram nas edições seguintes. Vale destacar que a partir daquele ano cada nova edição da Semana AC era tradada com um novo Secretário de Cultura, fato que dificultava qualquer entendimento sobre a participação da Secretaria de Cultura na formulação do evento. Mesmo assim continuei fazendo a minha parte. Em 2016 o então vereador Paulo Catta Preta, entendendo o valor da iniciativa e do artista citado conseguiu oficializar a Semana André Carneiro fortalecendo sua realização. Em 2018 um novo espaço cultural ganhou o nome de Centro Cultural André Carneiro. Um reconhecimento da sua importância para o município, fato diretamente ligado à realização da Semana André Carneiro, no qual tenho grande orgulho de ter sido o principal articulador. Fazia parte do projeto original, apresentado em 2014, à criação de um site sobre a Semana, onde pudéssemos reunir as informações e disponibilizar aos interessados. E assim foi feito. A princípio, a criação e execução seriam a cargo da Secretaria de Comunicação, mas depois de várias tentativas frustradas, percebemos a inviabilidade dessa ação da maneira como pretendíamos. Decidimos então que seria melhor realizar o site pelo Garatuja. Além do site criei ainda um blog e uma página nas redes sociais. Todo esse material foi produzido por mim, do layout aos textos, que incluiu pesquisas e muita leitura. Com o tempo outros amigos passaram a influir na realização da Semana. Cito o editor Silvio Alexandre, Gilberto Sant’Anna, Juliana Gobbe, Carlos Alberto Pessoa Rosa, Araceles Stamatiu, Nelson de Souza e mais recentemente tivemos a participação da FAAT através da Marta Alvim e do Osni Diaz. Durante as seis edições realizadas até aqui aconteceram exposições, lançamentos, exibições, palestras, publicações, debates e apresentações envolvendo inúmeros participantes, incluindo alunos de escolas públicas e demais interessados. Só na 5ª edição tivemos cerca de 800 pessoas atingidas diretamente no evento.
7ª Semana André Carneiro
Para esse ano, como aconteceu em anos anteriores, imaginava que um ofício seria necessário para confirmar a realização do evento. Desde o final do ano já me preparava para essa edição, inclusive agendando palestras que seriam realizadas em maio. Nesse tempo vi que a Secretaria de Cultura tinha aberto um edital de chamamento para ocupação dos espaços públicos que começaria a vigorar a partir desse ano. Em dúvida indaguei (informalmente) a Diretora de Cultura Carla Natal, se a Semana André Carneiro também se enquadrava nesse edital, necessitando apresentar projeto. Não tive resposta. Depois de alguns dias enviei um e-mail, solicitando um encontro com a Secretaria de Cultura a fim de criar a programação e começar os preparativos para essa 7ª edição. A resposta veio curta e grossa:

“A Secretaria de Cultura elaborou um edital específico para a Semana André Carneiro 2020. Publicação da Imprensa Oficial, edição n°2162 de 25 de janeiro de 2020 com errata na edição n°2163 de 29 de janeiro”.

Essa foi a resposta. A Secretaria de Cultura elaborou um edital de chamamento para a realização da 7ª Semana André Carneiro por sua conta, ignorando todo o histórico de realizações ocorrido até então. Sem sequer ter a delicadeza de nos comunicar, numa atitude injusta e antiética. Com qual intenção? Descartar os realizadores e colocar quem é de seu agrado? No momento em que a Secretaria de Cultura lança esse edital sem consultar os principais interessados fica claro o total desprezo pelas pessoas que conduziam o processo. Se a intenção era mudar a forma de contratação qual o problema em dialogar com todos os envolvidos? Porque fazê-lo de forma tão autoritária? Esses posicionamentos, com ares de normalidade, assumidas pela Secretaria de Cultura só reforçam a visão distorcida de seus dirigentes que resistem a qualquer tentativa de se criar uma política pública, onde as decisões sejam divididas com o conjunto da sociedade civil. Preferem o atendimento de balcão, onde podem, com sorrisos e postagens, atender a todos com simpatias e favorecer quem lhes convém.  Sempre no varejo e nunca no atacado, como deveria ser uma política pública de verdade. Digo isso porque os editais são ações jurídicas de grande importância num contexto democrático, onde o poder público tem a oportunidade de elaborar propostas junto com a sociedade civil, imprimindo legitimidade ao certame, conforme diz a LEI COMPLEMENTAR Nº 798, DE 19 DE MARÇO DE 2019, que Institui o Conselho Municipal de Política Cultural de Atibaia - Artigo 3º - Ao Conselho Municipal de Política Cultural de Atibaia compete:
XII - Elaborar em conjunto com a Secretaria Municipal de Cultura, anualmente, os editais públicos que regulamentarão:
a) A forma de financiamento dos projetos culturais a serem apresentados;
b) A ocupação dos próprios públicos destinados às atividades artísticas, respeitando seus regimentos internos, bem como o calendário oficial do Município que demande o uso de tais espaços garantindo a reserva de, no mínimo, 25% (vinte e cinco por cento) para produção local;
c) Os prazos de recebimentos, julgamentos, aprovações ou reprovações, confirmação ou desistência, tanto dos projetos de financiamentos quanto as propostas de ocupação dos próprios públicos.

Lembrando que o Conselho de Cultura encontra-se em pleno funcionamento, portanto nada justifica que esse edital tenha sido elaborado a revelia desse importante instrumento de participação popular. É juntamente com o Conselho de Cultura que devem ser elaborados todos os editais da Secretaria de Cultura, desde sua formulação até o acompanhamento da prestação de contas. É lá que a sociedade civil poderá fiscalizar, opinar e influir na indicação, por exemplo, de juris credenciados, com conhecimentos específicos de áreas para escolher os melhores projetos artísticos a serem desenvolvidos na cidade, e não deixar uma etapa tão importante como esta somente a cargo da Secretaria de Cultura, como esta prevendo o Edital recém publicado, além de outros problemas apresentados.

O sucesso da Semana AC só não foi maior porque faltou o envolvimento mais efetivo da Secretaria de Cultura, conforme ocorreu em sua primeira edição. O fomento a participação de outros artistas dependia de acordos elaborados com a Secretaria de Cultura, que não aconteceram por razões diversas. Uma delas foi a constante mudança de Secretários de Cultura ao longo dessa gestão. A cada mudança era necessário um exaustivo trabalho de informação e convencimento sobre o tema, que acabava sempre na decisão: “Esse ano vamos fazer mais simples, ano que vem agente capricha”. Fato que nunca ocorreu porque no ano seguinte era outro Secretário e a ladainha era a mesma. Durante as seis edições da Semana André Carneiro realizadas até aqui foram os seguintes Secretários que passaram pela pasta. Cada um falando uma língua.
1a Semana (2014) – Secretário Luís Otávio Frittoli
2a Semana (2015) – Secretário Cléber Centini
3a Semana (2016) – Substituindo a vacância do Secretário de Cultura assumiu o servidor público Silvio...
4a Semana (2017) – Secretária Viviane Cocco
5a Semana (2018) – Secretário Rui Tiago Oliveira
6a Semana (2019) – Secretário interino Bruno Perrota Leal e depois Roberta Engle Barsotti de Souza
Podemos citar outros Secretários que passaram pela pasta, mas sem participação direta nessa proposta como Jaime Santos e Alessandro Sabella. Eu pergunto. É possível desenvolver algo consistente nessas condições? Quem consegue fazer um trabalho de continuidade (que inclui acertos e erros) nesse clima? O que um decide hoje, não serve para o próximo amanhã. É um eterno recomeçar. Minha tentativa até aqui, em relação à Semana André Carneiro, foi cobrar e cumprir o que foi acordado com o primeiro Secretário de Cultura, que eu imaginava ter o aval do Prefeito Saulo Pedroso. E aqui vai uma duvida que só ele pode responder. Melhor do que ninguém o Prefeito Saulo Pedroso sabe da importância dos planos e metas de ação numa gestão pública. Fato que ele faz com muita competência. Mas e na Cultura? Quando tratei pela primeira vez sobre a Semana André Carneiro, estabelecendo metas a médio e longo prazo, eu estava falando com um Secretário de Cultura que representava um programa do governo Saulo Pedroso, ou estava falando com um Secretário que respondia por conta própria? Segundo suas próprias convicções? Não foi essa a impressão que tive, ao ver o entusiasmo por parte do poder público na solenidade de abertura da 1ª Semana AC. Na ocasião senti um grande envolvimento e comprometimento pela causa, fato que não ocorreu nos anos seguintes (com exceção da Secretária Viviane Cocco). Infelizmente. Essa inconsistência de representação favorece uma relação conflituosa de disputa entre quem produz cultura e quem deveria fazer sua gestão. Isso é péssimo porque passamos a ser vistos como concorrentes a serem eliminados pela própria Secretaria, que deveria fornecer os meios de realização das propostas apresentadas. Vejamos no caso específico desse edital. O que leva a Secretaria de Cultura a pensar que tem posse do evento e tomar decisões unilaterais? O fato de a Semana André Carneiro ter sido oficializada? Quer dizer que se oficializou, virou posse da Secretaria de Cultura? Essa lógica vai frontalmente contra tudo que deu certo até aqui em termos de eventos que apresentam continuidade de ações. Exemplo o Salão de Humor de Piracicaba que existe a mais de quarenta e cinco anos, extrapolando todas as gestões que passaram pela cidade de Piracicaba, tornando-se o principal evento cultural da cidade. Isso é possível porque o Salão mantém um grupo de organizadores que trabalham independentes dos humores políticos. São eles que estabelecem as diretrizes do Salão, mantendo uma linha original de conduta, dando coerência e unidade ao evento, mesmo com a alteração política partidária que comumente acontece. Lembrando que nesse grupo figuram pessoas de área, profundamente identificadas com a linguagem do humor e extremamente competentes, daí o sucesso que tem. São práticas comuns nos eventos de continuidade e outros exemplos não faltam. Se o fato da oficialização da Semana André Carneiro, ou seja, dele passar a figurar no calendário cultural oficial do município, for desculpa para a Secretaria de Cultura tomar posse do evento eu pergunto: Todos os demais eventos oficializados têm, ou terão, o mesmo tratamento? Porque então a Secretaria de Cultura, na gestão Saulo Pedroso, nunca realizou o Encontro de Artes Plásticas de Atibaia? Esse foi o segundo evento oficializado em Atibaia, sua criação é de 1968, entretanto nunca recebeu a devida atenção por parte deste governo. O último aconteceu em 2012. Os Encontros de Artes Plásticas tiveram grande importância cultural para o município, abrindo as festividades de aniversário da cidade durante muitos anos. Para quem não sabe o Encontro também era realizado por uma comissão, formada por três pessoas da sociedade civil. Eram eles que, em conjunto com a oficialidade local, realizavam o evento. O Encontro perdeu muito de sua força justamente quando deixou de existir as comissões, passando a ser realizada somente pela Secretaria de Cultura. A mesma visão equivocada se repete na atual Secretaria de Cultura em relação à Semana André Carneiro. Pretendem tirar a autonomia da sociedade civil na elaboração do evento e transferi-la para a oficialidade, que sabemos de antemão, não dará certo. Prova é que já começa com sérios problemas na própria premissa deste edital, revelando total desconhecimento pelo tema e outros fatores condicionantes. Sem a participação de quem domina o assunto à tendência é criar editais Frankstein como esse, que foi elaborado de forma superficial, com propostas que levam a uma única certeza: a desconstrução do que foi feito. Ao inserir novos realizadores, que dificilmente terão conhecimento sobre o assunto, além do que já foi divulgado por essa mesma Semana AC, o que teremos serão ações isoladas. Será mais um evento de fachada, pra cumprir tabela, para enganar os incautos e satisfazer os egos. Uma colcha de retalhos sem unidade e coerência. Lembrando que os possíveis ganhadores do edital poderão ser diferentes a cada ano, dificultando ainda mais essa unidade. Tudo no jeito para os captadores de recursos oportunistas de plantão, que sabemos, não estão nem aí com o conteúdo, mas são ótimos para fazer “projetos” e abocanhar recursos. Ao descartar seus realizadores originais o que ocorrerá é a desmobilização dos envolvidos, o enfraquecimento da sua continuidade e o fim de um trabalho que já existia há seis anos, com muito esforço e dedicação. Qual a lógica dessa atitude? Porque interferir em algo que vinha dando certo? Este ano a programação marcaria os setenta anos de um evento de grande importância cultural para o município, muito pouco conhecido. A pesquisa, que estava sendo desenvolvida por mim e Maurício Carneiro, poderá não mais ser aproveitada, uma vez que contávamos com o apoio da Prefeitura, portanto se a intenção era eliminar a minha pessoa, o edital atinge a todos os demais envolvidos no projeto e prejudica, principalmente, a cidade de Atibaia, que poderá não mais contar com o evento daqui alguns anos.

Outras dúvidas que tenho em relação a esse edital. Como fica o site, o blog e demais veículos de informação, que são partes fundamentais da curadoria autorizada pelos herdeiros legais? Eles são totalmente produzidos e mantidos por mim, como mencionado acima. O ganhador do edital fará esse trabalho? Eu tenho o domínio do site. Como ele fará isso? Talvez para a Secretaria de Cultura seja um detalhe sem importância, que poderá ser descartado. Assim como poderá ser descartada a confecção dos Cadernos da Semana André Carneiro, ou qualquer outra ação que não seja proposta por ela própria. Minha duvida é se essas questões foram levadas em conta ao elaborar esse edital. Se a resposta for sim, significa que o papel do site como veículo de informação e consulta não tem valor algum para a Secretaria?

Dito isso espero, sinceramente, que esse ato impensado por parte da Secretaria de Cultura seja revisto. Que ela tenha a maturidade de cancelar esse edital e abrir espaço para o diálogo. Mesmo porque, o valor destinado não necessita de processos licitatórios e concorrências, podendo acontecer com contratação direta, como vinha sendo feito anteriormente e como ocorre com outras atividades artísticas. Outra dúvida. Todos os pagamentos que incorrem na contratação direta estão sendo feitos através de edital, ou é somente esse? Mais do que tomar decisões vingativas e autoritárias, é necessário pensar no que é melhor para a cidade. De minha parte saliento que a 7ª Semana André Carneiro acontecerá, com Prefeitura ou sem ela, e nesse caso teremos duas Semanas André Carneiro acontecendo simultaneamente: Uma verdadeira (a que sempre existiu) e outra fajuta (sem a legitimidade dos envolvidos). Nada mal para um evento que se propõe a divulgar o nome de um artista que, com sua arte, nunca se furtou aos embates e polêmicas contra as arbitrariedades de plantão, denunciando de forma contundente e poética as agruras do poder.

Com revolta e indignação
Márcio Zago – Fundador do Garatuja, autor do livro “Expressão Gráfica da Criança” e curador da Semana André Carneiro.