sábado, 13 de outubro de 2018

“Tentativa”, o maior patrimônio cultural erudito de Atibaia, completa 70 anos.


















Em abril de 2019, o jornal literário Tentativa completará 70 anos. Criado por André Carneiro, sua irmã Dulce Carneiro e o amigo Cesár Mêmolo Jr., Tentativa reuniu no município o que havia de mais significativo na cultura da época. Com isso alcançou projeção nacional e internacional ao contar com correspondentes nas principais capitais mundiais como Lisboa, Buenos Aires e Paris. Foi considerado o melhor jornal literário do país. Tentativa, pasmem, foi totalmente produzido em Atibaia e figura como legítimo representante da Geração Modernista de 45. Em 2006 a Prefeitura de Atibaia e o Arquivo do Estado publicaram uma versão fac-símile do jornal. A organização foi de Araceles Stamatiu e continha o texto que segue, do escritor Carlos Alberto Pessoa Rosa. Saiba mais.

Tentativa
Sem palavras. Mais próximo de um olhar. Ligado ao umbigo do tempo. Adormecido nos entres de um museu. Assim encontrei Tentativa, nos anos oitenta. Alguém me falou...Seria injusto citar nomes sem ter a certeza. Apresentação: Oswald de Andrade. Ilustração: vista de Atibaia, por Aldemir Martins. Abril de 1949. No Subsolo do Esquecimento, J. B. Peçanha Sobrinho parecia intuir. Oswaldo Barreto Filho; Ciro Pimentel; Del Picchia; Hilda Hilst. Teatro, cinema, literatura. Páginas que não envelhecem, sincronia de Alcântara Silveira com o tempo. Imagem: J. Carvalhal Ribas. E o Décio Pignatári, Ledo Ivo, Otto Maria Carpeaux...Não devem se lembrar. Saí como um garimpeiro que descobriu o mais puro diamante. Tirei uma cópia e encadernei. Muito tempo depois, fiz o Meio-Tom, um jornal alternativo que rodou territórios desconhecidos, levava sempre um fragmento retirado da revista. Continua levando, agora na internet. Descobri no espólio de Vergílio Ferreira, em Portugal, a falta de um conto seu publicado em dezembro de 1950: Pureza. Está lá, com agradecimento e tudo a Atibaia. Que tempos...André Carneiro, Cesar Mêmolo Jr. e Dulce G. Carneiro merecem essa publicação. Atibaia merece. O Brasil merece. O mundo merece. Quem poderia imaginar a história da literatura brasileira, geração de 45, sendo construída também em Atibaia? Estão de parabéns todos aqueles que, como eu, acreditam que a memória de um país precisa ser preservada e cultuada.
Carlos Alberto Pessoa Rosa

domingo, 20 de maio de 2018

Semana André Carneiro cresce a cada edição




















Nessa quinta edição, que aconteceu de 05 a 11 de maio de 2018, a Semana André Carneiro foi especial. Meses antes, em fevereiro, a cidade ganhou o Centro Cultural André Carneiro - um marco na cultura do município. O nome não poderia ser mais apropriado e reforça a importância em dar visibilidade ao nome e a obra de nosso artista mais representativo. As ações da Semana André Carneiro certamente contribuíram para isso, fato que nos alegra e motiva.



A Semana teve sua abertura oficial no sábado, dia 05 de maio, às 19 horas, no próprio Centro Cultural André Carneiro - local que passa a abrigar a partir de agora as edições seguintes. A cerimônia foi conduzida pela escritora Juliana Gobbi, que fez a apresentação das autoridades, organizadores e familiares do homenageado ao público presente. O Secretário de Cultura e Eventos Rui Tiago Oliveira abriu a noite falando da importância da Semana e da sua continuidade. Henrique e Mauricio Carneiro, filhos do André, destacaram a obra e a vida do pai como artista e morador da cidade. Márcio Zago, idealizador e curador da Semana, falou das exposições “EspaçoPleno” e “Colagens/Poemas”, lembrando tratar-se de material inédito em Atibaia.  Falou ainda do lançamento dos “Cadernos da Semana” e da importância do “1º Prêmio Semana André Carneiro de Literatura – categoria poesia” como forma de estímulo a participação de artistas locais e regionais na programação do evento. Em seguida foi apresentado o espetáculo “O Brasil do André”, com direção de Juliana Gobbi e texto de Gilberto Sant’Anna. Nele os músicos Flávio Rodrigues e Cristiane Barbosa perfizeram a trajetória musical do tempo em que André Carneiro viveu em Atibaia, permeado de fatos históricos da cidade e do país.




No domingo, dia 06 de maio, às 17 horas, houve leitura de poemas pelo escritor Carlos Alberto Pessoa Rosa ao público presente. A ação aconteceu no espaço externo do Centro Cultural, reunindo no deck lateral um público atento à leitura que intercalava comentários e observações sobre cada tema apresentado. Em seguida os ouvintes foram convidados a entrar no espaço interno onde acorreu uma intervenção cênica com alguns integrantes do projeto As Linguagens da Dança, do IAC Garatuja. A performance propunha uma livre interpretação do poema “Sangue”, do livro EspaçoPleno editado em 1963.




Na segunda-feira, dia 07 de maio, às 16 horas a continuidade foi com a oficina “André na Rua”, proposta do poeta Thiago Cervan. A atividade aconteceu na Escola Carlos José Ribeiro e envolveu cerca de vinte e cinco jovens que trabalharam o estêncil e suas aplicações no ambiente urbano. Foi a primeira vez que houve uma atividade educacional dentro de escola utilizando como temática o artista atibaiano.




Terça-feira, dia 08 de maio, às 19 horas, com ausência da educadora Josette Manzani – da UFSCAR, a proposta “Cinema Comentado” foi substituída pela exibição de filmes produzidos em Atibaia por integrantes do grupo cultural formado nos anos cinquenta e liderados por André Carneiro. Foram exibidas quatro curtas metragens, que foram analisados e comentados pelo público presente após a exibição. A noite contou com a presença de vários alunos do EJA, da Escola Carlos José Ribeiro, assim como da Lina, ex-mulher do André, que marcou presença em quase todos os eventos.



Na quarta-feira, dia 09 de maio, às 19 horas, aconteceu a palestra “André Carneiro – De Atibaia para o mundo”, proferida pelo editor Silvio Alexandre. De maneira didática e utilizando-se de farto material visual, o palestrante resumiu a rica trajetória de André Carneiro e sua importância para a cidade. O publico presente, em sua maioria de escolas públicas, pode conhecer as várias facetas do artista e sua relação com a cidade.



Na quinta, dia 10 de maio, às 19 horas, aconteceu um “Bate papo”, ou roda de conversa, sobre a influência de André Carneiro na formação cultural do município com a presença de Gilberto Sant’Anna, Nelson de Souza, Juliana Gobbe, Carlos Alberto Pessoa Rosa, Araceles Stamatil, Diva Passador, Irma Vasquez e outros. O bate papo foi gravado e preserva importantes depoimentos de amigos e colegas que conviveram com André Carneiro em Atibaia e acompanharam muitas das ações protagonizadas por ele em diferentes áreas de atuação.



Encerrando a programação, na sexta, dia 11 de maio, às 19 horas, foi exibido o vídeo “Coleção Centenário de Oswald de Andrade”, com depoimento de Dulce Carneiro falando da influência de Oswald em sua formação artística. Dulce, irmã do André, foi à homenageada dessa edição. Dulce Carneiro foi poeta, fotografa e pioneira no jornalismo de moda. Ela fez parte do grupo de artistas que na década de quarenta/cinquenta marcou de forma inquestionável o histórico cultural do município. Ao lado do irmão e do amigo César Mêmolo Junior, Dulce foi responsável pela criação de nosso maior patrimônio cultural erudito: O jornal Literário “Tentativa”. O vídeo foi cedido pelo MIS - Museu da Imagem e do Som de São Paulo e constitui num raro material de pesquisa sobre a obra e o pensamento dessa grande e desconhecida artista de Atibaia.

Durante toda a programação a Semana contou com significativa presença de participantes para um evento que propõe voltar-se à formação de público.  As escolas E.E.Major Juvenal Alvim e E.E. Carlos José Ribeiro, através dos alunos do EJA, se envolveram com interesse nas propostas. Houve ainda marcante participação do público em conhecer melhor o artista atibaiano, alguns presentes todos os dias. No total tivemos cerca de 400 pessoas atingidas diretamente nos sete dias de evento. A exposição segue até o final de maio, aumentando sua abrangência. Foram sorteados diariamente vários Kits contendo os livros “André Carneiro Fotografias” e “Fotografias Achadas, Perdidas e Construídas”. No total foram distribuídos 38 kits, ou 76 livros doados pelos familiares do André. A distribuição desse material faz parte da proposta inicial do projeto que é disponibilizar sua obra a um maior número de interessados.

A cada edição a Semana André Carneiro se firma como um evento que veio para ficar. Um passo importante nesse sentido foi iniciar o processo de criação de uma comissão de apoio formado por pessoas com afinidade e identidade com o projeto e o homenageado. Sem qualquer vínculo político partidário, a intenção é agrupar e fomentar a participação da sociedade civil na elaboração e realização das próximas edições da Semana André Carneiro garantindo sua continuidade e independência. Embora a iniciativa original tenha partido do Instituto Garatuja, através de seu fundador e atual curador, Márcio Zago, sua realização só é possível graças ao empenho da Prefeitura de Atibaia, através da Secretaria de Cultura e Eventos. Esse é um modelo de parceria que acreditamos conter garantias de continuidade para esse projeto frente às constantes instabilidades da área cultural.

Exposições "EspaçoPleno” e “Colagens/Poemas” seguem até o final do mês.


















Segue até o final de maio as exposições “EspaçoPleno” e “Colagens/Poemas”, no Centro Cultural André Carneiro. É uma boa oportunidade para quem deseja conhecer melhor a obra do artista atibaiano que mais influiu na formação cultural do município. EspaçoPleno propõe uma visão individualizada sobre as 29 pranchas que compõem o livro objeto de mesmo nome. Editado em 1966 pelo Clube de Poesia, EspaçoPleno é o segundo livro de poesia de André Carneiro. Mais que um livro, é um objeto de arte de confecção quase artesanal. A concepção visual foi do artista plástico uruguaio Luis Díaz, que separou cada poema em folhas avulsas acondicionadas numa caixa. As xilogravuras que ilustram os poemas foram impressas no processo tipográfico que imprime um caráter único a cada exemplar. Pela importância alcançada e sua reduzida quantidade, o livro encontra-se arquivado como “obra rara” na Biblioteca Nacional. O livro recebeu o Prêmio “Alphonsus de Guimaraens”, da Academia Mineira de Letras e tem o prefácio do escritor Domingos Carvalho da Silva. Saiba mais clicando aqui. A segunda exposição é Colagens/Poemas, onde o homenageado reúne duas de suas habilidades: a colagem e a poesia. São 30 pranchas montadas sobre Duratex no tamanho 30 X 40 cm realizadas nos anos oitenta e representam uma pequena parte da profícua produção de André Carneiro nessa técnica. André adorava recortar, colar e reinventar significados com diferentes materiais: páginas de revistas, fotos, papéis coloridos e outros. Fez isso durante toda vida e usou desse recurso para fazer capas de livro, ilustrações e quadros.  Esse material foi exposto somente no Sesc do Carmo em 1983, portanto inédita em Atibaia. Nelas a poesia e a colagem se fundem não como mera imagem ilustrando a palavra, mas numa perfeita integração.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Leitura dramatizada e performance na 5ª Semana André Carneiro.


Leitura Dramatizada com Silvia Mazulo

























No domingo, dia 06 de maio, às 17 horas acontece no Centro Cultural André Carneiro duas ações performáticas: Leitura Dramatizada de Silvia Mazulo e Performance com o Corpo Municipal de Dança de Atibaia, ambos sobre a obra do homenageado. Sobre o trabalho de Silvia Mazulo, a Semana destaca que é o momento em que se pretende enfatizar com leitura dramatizada a obra do autor num movimento que caracterize suas poesias no universo incerto ao qual se debruçou. A poesia de André Carneiro sempre esteve em chamas. Em seus versos a memória e o tempo dançam e aventuram-se intensamente no enredado da existência. Nos entremeios das imagens e sons vão-se embora com as letras nosso quase respirar. Tudo no mestre das palavras enaltece a paixão pelos momentos, sejam eles presentes, passados ou futuros. No intuito de avivar com a leitura dramatizada a obra do poeta a atriz e diretora teatral Sílvia Masulo vai tecer através da voz as rendas da poesia de um talento visceral performatizando a escrita poética do autor de maneira a através da leitura interagir com o público presente. A performance da Escola Municipal e Corpo Municipal de Dança de Atibaia trabalha na releitura do poema “Sangue”. Poderá haver debate após a apresentação.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Espetáculo O Brasil do André, na abertura da 5ª Semana André Carneiro.

Por Juliana Gobbe

Trata-se de um espetáculo que tenciona descortinar com um show permeado por fatos históricos nacionais e locais a aura reinante à época do jovem artista André Carneiro. O evento vai rememorar a era do rádio ecoando na ainda pequena Atibaia, bem como na vivência do artista em suas relações com a sociedade vigente. A obra de André Carneiro traduz-se em homenagens sinceras, pois nela encerra-se o calor da poesia calcada no correr do tempo. A Semana que o exalta todos os anos só acrescenta luz aos livros e pensamento do artista. Na tentativa de trazer à tona os acontecimentos das décadas em que André viveu e produziu, o show O Brasil do André com os músicos Flávio Rodrigues e Cristiane Barbosa abarca através de canções a história do Brasil confundindo-se com a rica trajetória do artista dos “sete instrumentos”. Com auxílio dos textos de Gilberto Sant’Anna e direção artística de Juliana Gobbe o espetáculo fará parte da abertura da Semana André Carneiro. Agendem!


No ensaio para o show O Brasil do André para a 5 Semana André Carneiro.
Alegria e honra em poder fazer a direção artística do espetáculo com a dupla
Cristiane Barbosa e Flávio Rodrigues tendo o auxílio luxuoso
do texto de Gilberto Sant'Anna. Aguardem!!!!


















terça-feira, 24 de abril de 2018

Exposições inéditas em Atibaia na 5a Semana André Carneiro.

As exposições ficam abertas até o final de maio no Centro Cultural André Carneiro.








































Na programação da 5ª Semana André Carneiro acontece duas exposições paralelas. A primeira é EspaçoPleno, que propõe uma visão individualizada das 29 pranchas que compõem o livro objeto de mesmo nome. Editado em 1966 pelo Clube de Poesia, EspaçoPleno é o segundo livro de poesia de André Carneiro. Mais que um livro, é um objeto de arte de confecção quase artesanal. A concepção visual foi do artista plástico uruguaio Luis Díaz, que separou cada poema em folhas avulsas acondicionadas numa caixa. As xilogravuras que ilustram os poemas foram impressas no processo tipográfico que imprime um caráter único a cada exemplar. Pela importância alcançada e sua reduzida quantidade, o livro encontra-se arquivado como “obra rara” na Biblioteca Nacional. O livro recebeu o Prêmio “Alphonsus de Guimaraens”, da Academia Mineira de Letras e tem o prefácio do escritor Domingos Carvalho da Silva. A segunda exposição é Colagens/Poemas, onde o homenageado reúne duas de suas habilidades: a colagem e a poesia. São 30 pranchas montadas sobre Duratex no tamanho 30 X 40 cm realizadas nos anos oitenta e representam uma pequena parte da profícua produção de André Carneiro nessa técnica. André adorava recortar, colar e reinventar significados com diferentes materiais: páginas de revistas, fotos, papéis coloridos e outros. Fez isso durante toda vida e usou desse recurso para fazer capas de livro, ilustrações e quadros.  Esse material foi exposto somente no Sesc do Carmo em 1983, portanto inédita em Atibaia. Nelas a poesia e a colagem se fundem não como mera imagem ilustrando a palavra, mas numa perfeita integração.  A apresentação da Mostra será do escritor Carlos Alberto Pessoa Rosa, que chama a atenção para “a sensualidade apresentada através da nudez, traço marcante na estética do autor, e que tem a força do viver, seja a do corpo feminino, seja a da natureza. No agora exposto, tanto nos poemas quanto nas imagens, tudo sugere que ‘no sensível’ não há espaço para gêneros, é tudo uma única coisa, uma máquina em contínuo exercício do gozo”.

Saiba mais clicando aqui.





domingo, 22 de abril de 2018

Programação da 5ª Semana André Carneiro 2018


Acompanhe as atrações da 5a Semana André Carneiro. Programe-se e Participe!


Dia 05 de maio- sábado - 19 horas
Centro Cultural André Carneiro
Abertura oficial do evento.
Abertura das exposições: Colagens/Poemas, onde o homenageado reúne duas de suas habilidades: a colagem e a poesia. São 30 pranchas montadas sobre Duratex no tamanho 30 X 40 cm realizadas nos anos oitenta. Obra inédita em Atibaia.

EspaçoPleno – Mostra que reúne cerca de 20 pranchas/poemas contidas na edição semi-artesanal do livro de mesmo nome. EspaçoPleno é um livro-objeto editado no início dá década de sessenta e hoje catalogado como obra rara na Biblioteca Mário da Andrade. A edição teve o projeto gráfico e ilustrações em xilogravura do artista plástico uruguaio Luis Díaz.

Lançamento simbólico do Caderno da Semana André Carneiro - Pelo quarto ano consecutivo será confeccionado os Cadernos da Semana, produção artesanal e barata, com esmerado acabamento visual, que tem o propósito de materializar assuntos referentes à Semana. Nessa edição serão lançadas duas edições. A de número 3, de 2017 e a número 4, desse ano. Elas serão distribuídas posteriormente as bibliotecas da cidade e região.

Lançamento do 1º Prêmio Semana André Carneiro de Literatura – categoria poesia. A ideia é criar envolvimento entre artistas locais e regionais de forma a mobilizar a classe artística, não só como espectador, mas também como participante efetivo da Semana. Haverá uma premiação em dinheiro e o  regulamento, assim como as inscrições  estarão disponíveis em breve no site da Semana, que terá uma aba específica para essa função.

Espetáculo O Brasil do André - Trata-se de um espetáculo que tenciona descortinar com um show permeado por fatos históricos nacionais e locais a aura reinante à época do jovem artista André Carneiro. O evento vai rememorar a era do rádio ecoando na ainda pequena Atibaia, bem como na vivência do artista em suas relações com a sociedade vigente. Para tanto, os artistas Flávio Rodrigues e Cristiane Barbosa estão escalados juntamente com o advogado e historiador Gilberto Sant’Anna sob direção de Juliana Gobbe na perspectiva de trazer ao público de forma lúdica o clima dos anos 40 do século XX.

Dia 06 de maio - domingo - 17 horas
Centro Cultural André Carneiro
Leitura dramatizada.  Este momento da Semana André Carneiro pretende enfatizar com leitura dramatizada a obra do autor num movimento que caracterize suas poesias no universo incerto ao qual se debruçou. Para tanto contaremos com a experiência e talento da atriz Sílvia Masulo para performatizar a escrita poética do autor de maneira a através da leitura interagir com o público presente. Poderá haver debate após a apresentação.

Performance do Garatuja - Com os integrantes do Corpo Municipal de Dança de Atibaia sobre obra poética de André Carneiro.

Dia 07 de maio - segunda - 16 horas
Escola Carlos José Ribeiro
Oficina de estêncil: André na Rua. A oficina irá trabalhar questões que envolvam texto, imagem e intervenção urbana através da técnica do stencil. A partir do contato com a obra de André Carneiro as/os participantes coletarão enxertos poéticos de sua autoria a fim de interferirem no espaço urbano. A oficina terá a coordenação do artista plástico e poeta Thiago Cervan. Os interessados podem se inscrever através do site. Vinte vagas disponíveis por ordem de chegada.

Dia 08 de maio - terça - 19 horas
Centro Cultural André Carneiro.
Cinema Comentado com Josette Monzani. Após exibição pretende-se nessa palestra discutir a visão da metrópole no filme Se nada mais der certo (2008), do cineasta José Eduardo Belmonte, e a agonia do homem moderno emblematizada em uma cidade engolidora de cidadanias e geradora de travestimentos múltiplos. Irá se traçar algumas considerações sobre o olhar, o sentir e o refletir na contemporaneidade a partir da experiência cinematográfica exemplificada pelo filme escolhido que tem a cidade de São Paulo como pano de fundo. A Profa. Dra. Josette Monzani nasceu e cresceu em Atibaia. É professora de cinema do Bacharelado e do Mestrado em Imagem e Som da UFSCar, São Carlos, com Pós-Doutorado em Cinema pela ECA-USP, SP.  Coordena o grupo de pesquisa "Cinema e Comunicação" do CNPq.

Dia 09 de maio - quarta - 19 horas
Centro Cultural André Carneiro.
Palestra André Carneiro: De Atibaia para o Mundo com o editor Silvio Alexandre. André é o autor de ficção científica brasileira com maior destaque internacional, com contos e romances publicados em 16 países. Considerado o melhor autor e referência de literatura fantástica na América Latina. Foi através da sua obra que a ficção científica do Brasil ganhou notoriedade no exterior. Silvio Alexandre é editor e gestor cultural com formação em Letras pela USP. Trabalha como consultor editorial e parecerista, além de desenvolver projetos editoriais junto a várias editoras.

Dia 10 de maio - quinta - 19 horas
Centro Cultural André Carneiro.
Bate papo - A influência de André Carneiro na formação cultural do município. Participação de amigos e admiradores do homenageado como Gilberto Sant’Anna, Nelson de Souza, Araceles Stamatiu, Euclides Sandoval, Juliana Gobbe, Carlos Alberto Pessoa Rosa e outros.

Dia 11 de maio - sexta - 19 horas
Centro Cultural André Carneiro.
Fechando a programação, teremos a exibição do vídeo Coleção Centenário Oswald de Andrade, com depoimento de Dulce Carneiro falando da influência de Oswald em sua carreira. Dulce, irmã do André Carneiro, é a homenageada dessa edição. Dulce foi poeta, fotografa e jornalista de moda. Ela fez parte de um grupo de artistas formado na década de quarenta/cinquenta em Atibaia que produziu, ao lado do irmão e do amigo César Mêmolo Junior, o nosso maior patrimônio cultural erudito: O jornal Literário Tentativa.

sábado, 21 de abril de 2018

Dulce Carneiro, a desconhecida artista de Atibaia.

Dulce Carneiro na foto de Tufy Kanji - 1958






































De 05 a 11 de maio acontece a quinta edição da Semana André Carneiro - realização da Secretaria de Cultura e Eventos de Atibaia e do Instituto Garatuja. A grande homenageada será Dulce Carneiro, artista falecida em fevereiro desse ano. Dulce foi à última expoente do movimento cultural de vanguarda formado no final da década de quarenta em Atibaia. Escritora, fotógrafa e jornalista de moda, Dulce participou ativamente dos acontecimentos culturais daquele período. Embora jovem, teve importância fundamental na criação de inúmeras ações que deixaram sua marca na formação cultural do município. O pintor Aldemir Martins, em inicio de carreira e também participante desse movimento descreve seu primeiro contato com ela: Como os artistas acabam se encontrando, conheci a Dulce Carneiro. Uma menina linda de vestido de crochê, falando francês e inglês, familiarizada com os grandes movimentos artísticos do mundo. Uma intelectual. Qualidades que também chamaram a atenção de Oswald de Andrade. Em sua coluna “Telefonema”, que mantinha no jornal carioca Correio da Manhã, publica em outubro de 1949: Como ficou a escola mineira na nossa literatura, ficará sem dúvida, o que eu chamo de Escola de Atibaia, o melhor esforço de cristalização da nossa poesia atual. Parece fábula, mas não é. No cocuruto da Serra do Juqueri (esse nome indica a capital da loucura paulistana), no minúsculo burgo de Atibaia, três poetas existem. São eles: Dulce e André Carneiro e César Mêmolo Junior. Para aí um ano atrás fomos arrebanhados pelo Clube da Poesia num show de que foi astro José Geraldo Vieira. Desde então o nosso contato com os três poetas tem sido contínuo. E verificamos que, particularmente Dulce Carneiro é dotada de uma excelsa capacidade de poesia... Ainda em 1949 os três poetas lançam em Atibaia o Jornal Literário Tentativa, nosso maior patrimônio cultural erudito. Embora liderado pelo irmão André, sete anos mais velho, Dulce teve participação ativa em sua produção. Oswald de Andrade dedica a ela sua apresentação nesse jornal: Minha doce poetisa Dulce Carneiro: Vou tentar explicar a você para que você tente explicar aos outros que em vão tentei encartolar uma apresentação de revista. De modo que se você quiser, publique esta carta que me desobriga de qualquer outro prefácio à obra polêmica e lírica que querem vocês tentar. De Atibaia, guardo primeiro você. Depois, a torre espigada e nos hotéis de veraneio, o short largo de uma funcionária em férias... E arremata O Brasil possui um grande poeta – Cassiano Ricardo. E uma poetisa – você!. Em 1953 Dulce Carneiro publica Além das Palavras, livro editado pelo Clube da Poesia. Na contra capa um desenho de Aldemir Martins e a apresentação: Entre os nomes de maior prestígio que formam o grupo dos poetas novíssimos de São Paulo, destaca-se o de Dulce Carneiro, jovem integrante da reduzida e brilhante equipe que editou, durante dois anos, em Atibaia, o periódico literário “Tentativa”. Filha dessa pequena e recatada cidade, Dulce Granja Carneiro não se conformou com os estreitos limites que, em geral, oferece o ambiente provinciano dos municípios do interior. Seguindo os passos do irmão, o poeta André Carneiro, começou logo depois da publicação dos seus primeiros poemas a participar da vida social e literária da Capital de São Paulo.... Nos fins dos anos cinquenta Dulce mantinha a coluna “Uma Crônica por mês” no jornal O Estado de São Paulo. Numa delas revela sua segunda paixão: a fotografia. Influenciado pelo irmão André, aos onze anos começa a fotografar e aos trinta se profissionaliza. Extremamente técnica, especializou-se em fotografia portrait de grandes empresários, homens de negócios, artistas, políticos e demais personalidades. Outra especialidade de Dulce Carneiro foi à fotografia de arquitetura e engenharia de grandes obras como hidrelétricas, usinas siderúrgicas, usinas nucleares, minas de carvão, fábricas etc. Numa entrevista concedida ao Museu da Imagem e do Som, externou certa resistência à postura do “fotografo de parede”, forma que usava para definir a fotografia de autor, ligada somente a questão estética. Considera-se uma “operária” da fotografia e não fazia distinção entre sua profissão ao dos engenheiros e trabalhadores braçais das obras que fotografava. Com eles subia escadas, andaimes e comportas em busca da melhor imagem. Dulce Carneiro foi bastante conhecida, conceituada e requisitada na área, além de ser uma das primeiras a romper a hegemonia masculina dos grandes fotógrafos brasileiros. Nos anos cinquenta já ingressa no Foto Cine Clube Bandeirante, ambiente majoritariamente masculino. O Foto Cine Clube Bandeirante, existente desde 1939 surgiu da necessidade a burguesia paulistana criar um ambiente de distinção em relação a crescente popularização dos meios fotográficos que vinha do desenvolvimento industrial. Esteticamente havia uma preocupação em “ser diferente” do que era produzido de forma mais “popular”. A Intenção era aproximar-se ao máximo a fotografia das “Belas Artes”, retirando seu caráter de produção mecânica, interferindo diretamente na cópia fotográfica, aplicando manualmente um toque “artístico” e único a cada foto. Era a chamada estética pictorialista. Quando Dulce Carneiro, assim como seu irmão André, conheceram o Foto Cine Clube Bandeirante a proposta já era outra. Influenciados pelos movimentos de vanguarda da Europa e Estados Unidos, aos poucos o pictorialismo foi dando lugar ao surgimento da fotografia moderna no Brasil, principalmente através da chamada “Escola Paulista” que aconteceu no interior do Cine Foto Clube Bandeirante. Esse grupo era formado por jovens fotógrafos abertos a novas possibilidades expressivas, que viam a fotografia como um meio de expressão autônoma, tanto formal como estética. Faziam parte: Geraldo de Barros, José Yalenti, Tomas Farkas, German Lorca, Gaspar Gasparian e Eduardo Salvatore. André Carneiro e Dulce Carneiro também integravam o grupo. Gestrudes Altschul foi a primeira mulher a integrar o Escola Paulista de Fotografia. A partir de 1950 começa a surgir uma participação maior das mulheres nos boletins editado pelo Foto Cine Clube Bandeirante. Dulce Carneiro passa a assinar a sessão Inquérito – Intelectuais brasileiros respondem: Fotografia é Arte? Essa sessão propunha aproximar a elite intelectual brasileira da arte fotográfica. A primeira entrevista foi com José Geraldo Vieira. Dulce Carneiro tinha ainda outra paixão: A moda. Suas matérias eram publicadas no jornal O Estado de São Paulo, nos anos sessenta. Dulce, ao contrário do irmão André, mudou cedo de Atibaia. Faleceu na cidade de São Sebastião e não deixou filhos. Negativos fotográficos, recortes de jornais e outras memórias de sua produção artística foram destruídos por ela. Quase nada sobrou de uma vida dedicada à arte e a cultura, agora só revelada pelos curiosos pesquisadores que se propuserem a desvendar os encantos e os mistérios da alma humana.

Matéria publicada no ornal O Atibaiense de 21 de abril de 2018
Márcio Zago – Fundador do Garatuja e curador da Semana André Carneiro.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Atibaia inaugura o Centro Cultural André Carneiro

Por Márcio Zago


Dia 17 de fevereiro de 2018 foi à data escolhida para inaugurar o Centro Cultural André Carneiro. Esse fato tem dupla importância para Atibaia. Primeiro pela criação de um novo espaço voltado as atividades culturais, tão esperadas pelos munícipes. Segundo pela escolha do nome. Com isso a cidade reafirma a intenção de difundir a obra de André Carneiro na região. André tem uma vasta produção em diferentes linguagens: escritor; poeta; fotógrafo; artista plástico; cineasta; hipnotizador clínico; artista gráfico e publicitário. Diferente de muitos artistas que abandonam sua terra natal para se dedicar a carreira artística, André passou a maior parte de sua vida morando na cidade e aqui produziu sua arte. André também atuou e contribuiu de forma inquestionável na vida social do município, sendo um dos responsáveis pela transformação de Atibaia em Estância Hidro Mineral. Trabalhou também sua imagem de cidade turística enquanto Diretor de Cultura e Turismo no inicio dos anos setenta. É uma justa homenagem. 




O nome
O nome escolhido para o Centro Cultural se deu numa reunião convocada por alguns artistas locais que tinham sugestões a fazer ao Prefeito Saulo Pedroso. Estavam presentes, além de mim, os músicos Rafael Cardoso e Marcelo Alvim, a vereadora Roberta Barsotti, a ex Secretária de Cultura Viviane Cocco, Itaís Dutra e outros. Dos nomes apresentados, André Carneiro foi escolhido pela coerência em relação ao uso que se faria do espaço - mais apropriado a exposições de artes plásticas, fotografias, etc. Outro fator que pesou foi à necessidade de reafirmar o nome do homenageado no cotidiano da cidade. O primeiro impasse foi em relação a uma lei existente que não permite duplicar o nome de algum homenageado. A Biblioteca Pública do Jardim Imperial já levava o nome de André Carneiro. A Vereadora Roberta Barsotti apresentou então um projeto propondo retirar o nome daquela Biblioteca para que pudesse ser inserido no novo espaço. A partir de agora seu nome figura na praça principal, no coração da cidade.

A inauguração
A chuva torrencial que caiu durante a inauguração atrapalhou um pouco o evento. A Fanfarra Municipal, que faria a apresentação na parte externa do prédio, não pode se apresentar. A participação dos músicos Flávio Rodrigues e Cristiane Barbosa também foi suspensa. Uma pena, porque tudo isso demanda trabalho e seria muito bom vê-los tocar. A cerimonia começou com a celebração do Padre Eugênio Berti. O Secretário de Cultura e Eventos Rui Tiago Oliveira em seu discurso destacou a importância do novo espaço. O mesmo fez a Presidente da Câmara Municipal, a vereadora Roberta Barsotti e eu, como curador da Semana AC. A família do homenageado foi representada pelo Henrique Carneiro (filho de André) e Evelina André Carneiro, a Lina (Viúva do André). Mauricio Carneiro, também filho do André, por questões de saúde não pode comparecer. Mauricio, além de grande amigo, é parceiro indispensável na realização da Semana AC. Henrique leu uma breve mensagem do irmão Maurício, passando em seguida a falar da importância da obra do pai no contexto político atual e sua pertinência frente ao momento tão difícil que atravessa o país. Em seguida o Prefeito Saulo Pedroso, destacou a atuação da Prefeitura nas diversas áreas da cidade e sua alegria ao entregar aquele espaço cultural ao município, descerrando a placa de inauguração e encerrando a solenidade de abertura. Estiveram presentes outras autoridades como a Primeira Dama Simone Cardoso, Vereadores, Secretários, o ex-Deputado Roberto Santiago, o editor Silvio Alexandre, artistas e público em geral.

 

Preparativos para a apresentação da FAMA
Lina e o Prefeito
Presença do Garatuja 
Da esquerda pra direita: Emil Ono (Vice Prefeito), Henrique 
Carneiro (filho do André), Simone Cardoso (Primeira Dama), 
Saulo Pedroso (Prefeito), Lina (ex esposa do André),  Roberta 
Barsotti (Vereadora), Rui Tiago (Secretário de Cultura) e 
Márcio Zago (Curador da Semana AC)

O Espaço
O novo espaço conta uma ampla sala para exposições de arte e na parte externa um deck apropriado a apresentações musicais intimistas. Tem ainda uma cafeteria que oferece uma linda vista para nosso maior cartão postal: A Pedra Grande. Para essa abertura foi montada a exposição “Impressões Guardadas” com obras do acervo da Prefeitura organizada pela curadora Rita Moura. Do outro lado, com minha curadoria, foi montada uma pequena mostra do trabalho fotográfico de André Carneiro. As capas do jornal literário Tentativa, editado entre 1949 e 1951 por André Carneiro, sua irmã Dulce Carneiro e o amigo César Mêmolo Junior, também fez parte da mostra. Tentativa é um legitimo representante da Geração de 45 e figura como nosso maior bem cultural erudito. Completa o espaço uma vitrine/memorial que tem caráter permanente com alguns pertences do homenageado como os originais do romance inacabado Hermes, sua filmadora 8 mm e demais apetrechos que utilizou nos anos cinquenta para a realizar diversos curta metragens. Tem ainda objetos, esculturas e colagens, além de um pequeno informativo cronológico que vai de 1922, data de seu nascimento, até 1972 quando deixa Atibaia e passa a morar em São Paulo.
















sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

André Carneiro – O artista de Atibaia

Foto de Dulce Carneiro - 1968






































Essa biografia de André Carneiro destaca o período de 1922 a 1972, quando deixa Atibaia e passa a morar em São Paulo. São cinco décadas de intensa participação na vida social do município, principalmente na área cultural. Diferente de muitos artistas que abandonam a cidade natal para fazer carreira nos grandes centros, André permaneceu na cidade, contribuindo de forma inquestionável na criação da identidade cultural do município.

André teve uma longa e profícua produção em diferentes áreas: Literatura, cinema, artes plásticas, fotografia. Foi ainda hipnotizador, artista gráfico e publicitário. Na prosa e na poesia seu nome figura como um dos mais conceituados escritores nacionais. Foi um dos precursores da ficção científica nacional e importante poeta da geração de 45 - a terceira geração Modernista de 1922. Na fotografia é considerado pioneiro da fotografia modernista no Brasil e no cinema atuou de forma expressiva em diferentes períodos de sua vida. Nas artes plásticas realizou colagens, pinturas, esculturas e desenvolveu a técnica que chamou de Pintura Dinâmica, onde diferentes reações químicas alteravam esteticamente as imagens aprisionadas em compartimentos de vidro.

André Carneiro nasceu em Atibaia no dia 09 de maio de 1922. Seu pai, Recaredo Granja Carneiro, foi provedor da Santa Casa, vereador, Diretor do Clube Recreativo e proprietário da Casa Recaredo, loja de material para construção, que depois foi mantida pelo próprio André. Sua mãe era Dona Engrácia de Almeida Carneiro, descendente do bandeirante Bartolomeu Bueno. Tinha quatro irmãs: Odete e Odila Carneiro, por parte de pai e Maria Francisca e Dulce. Dulce Carneiro também foi poeta e fotografa de renome.

André Carneiro fez o curso primário no Grupo Escolar José Alvim, onde foi aluno da professora Aracy Bueno Conti. Em 1939, aos 17 anos, vai, em regime de internato para o Colégio Arquidiocesano, em São Paulo. Ali, no prédio da Praça Tiradentes, conviveu com religiosos de orientação marista, onde faz seus estudos ginasiais e secundários adquirindo ampla cultura literária, até que graves doenças o trazem de volta a cidade. Teve pleurisia. No tempo de repouso forçado aproveitou para ler tudo que podia, mas nunca ingressou num curso superior.

Restabelecido e morando novamente na cidade passa a ter enorme atuação em diferentes áreas, principalmente como artista. Em 1943 começa a escrever crítica politica nos jornais da cidade e desperta o interesse do poeta Domingos de Carvalho Silva, que abre espaço para seus artigos no Correio Paulistano. Sua obra começa a ter repercussão no meio intelectual.

Antevendo o clima pós-guerra a classe empresarial, comercial e demais membros da sociedade Atibaiense, influenciados pelo empresário César Mêmolo, criam a SADA – Sociedade Amigos de Atibaia. A SADA foi responsável por inúmeras ações de transformação social, cultural e politica do município, destacando a classificação de Atibaia em Estância Climática, e posteriormente em Estância Hidro Mineral. André Carneiro foi Secretário da SADA.

Em 1946, com 24 anos, André Carneiro começa a liderar um grupo de jovens artistas locais com ações que iriam marcar a cidade para sempre. Ações que abrangiam diferentes áreas como a literatura, cinema, artes plásticas e fotografia. O grupo tinha entre seus componentes as irmãs Dulce, Maria Francisca, Odila e Odete Carneiro. Tinha ainda César Mêmolo Junior e seus primos Elisa Helena, Maria Amélia e Amadeu Lana, além de Luiza Lima de Oliveira Chaves e João Luís Chaves. Outros artistas também se juntaram a eles por determinado tempo, como Oswaldo Barreto Filho e Aldemir Martins.

Ainda em 1946, André Carneiro e os amigos César Mêmolo Junior, Donozor Lino e Helvécio Scapim iniciam um pequeno acervo literário no então existente Clube Comercial. As doações de outras pessoas engrossaram o acervo, que propunha ser aberto ao atendimento da população. O empreendimento cresceu sendo mais tarde doado à SADA - Sociedade Amigos de Atibaia, que depois transferiu a Prefeitura, originando a atual Biblioteca Publica Joviano Franco da Silveira. 

Em 1947, com os escritores e poetas Péricles Eugênio da Silva Ramos, Domingos Carvalho da Silva e João Acioli, funda a Revista Brasileira de Poesia, que divulgava os preceitos estéticos do que foi conhecida mais tarde por Geração de 45.

Em 1948, junto com Péricles Eugênio da Silva Ramos, Domingos Carvalho da Silva, Mário da Silva Brito e Geraldo Vidigal organiza o 1º Congresso Paulista de Poesia que aconteceu na Biblioteca Municipal de São Paulo. André foi o representante do interior do estado (Atibaia) defendendo tese sobre a recepção da poesia e o grande público. Foi eleito Secretário do Congresso e teve intensa participação nos debates, ganhando destaque e atenção de Oswald de Andrade. Tornaram-se grandes amigos e Oswald passou a visitá-lo com frequência em Atibaia. Nesse congresso foi usado pela primeira vez o termo “Geração de 45”, para designar a terceira geração de modernistas. A primeira foi de 1922 a 1930 e a segunda de 1930 a 1945.

Ainda em 1948, por deliberação do próprio Congresso, e influenciados pela Revista Brasileira de Poesia foi criado em São Paulo o Clube da Poesia, que tinha em seus quadros importantes expoentes da poesia moderna como José Geraldo Vieira, Sérgio Milliet, Menotti Del Picchia e outros. O poeta e ensaísta Cassiano Ricardo foi eleito Presidente e anos depois André Carneiro seria Diretor de Divulgação do Clube da Poesia que tinha a proposta de promover conferências, cursos e publicações.

Pouco depois André Carneiro e o grupo de artistas locais organizam o Clube de Poesia de Atibaia, associado ao Clube de Poesia de São Paulo. Em agosto de 1948 o Clube de Poesia local, o jornal O Atibaiense e o Ginásio Atibaiense promovem um recital de poesia trazendo para cá uma caravana de intelectuais paulistas filiados ao Clube de Poesia de São Paulo. Estiveram presentes Oswald de Andrade, José Geraldo Vieira, Aldemir Martins, Jamil Almansur Haddad entre outros. O evento aconteceu no Salão Nobre do recém-inaugurado Ginásio Atibaiense (hoje Escola Major Juvenal Alvim).

Em 1949 publica seu primeiro livro de poesia “Ângulo e fase”.  Escrito na cidade, o livro foi muito bem aceito, ganhando prêmios e homenagens com o sucesso alcançado. Ainda no mesmo ano, 1949, em companhia da irmã Dulce Carneiro e do amigo César Mêmolo Junior produz o Jornal Literário "Tentativa". Tentativa foi impresso na gráfica do jornal O Atibaiense e logo ganhou grande repercussão nacional e internacional, sendo considerado na época o melhor jornal literário do Brasil. Em seu primeiro número, Tentativa teve a apresentação de Oswald de Andrade e o logotipo desenhado pelo pintor Aldemir Martins.

Uma das grandes repercussões do jornal foi a publicação na edição nº 4, em outubro de 1949, de uma entrevista com o escritor Graciliano Ramos, falando sobre os textos e poetas da época. Graciliano nunca havia dado nenhuma declaração à imprensa até então. O jornal tinha entre seus colaboradores os maiores nomes da literatura nacional, seja da nova geração, seja das gerações mais antigas e já consagrados como Sérgio Millet e Oswald de Andrade; ou em processo de consagração, como Murilo Mendes e Otto Maria Carpeaux. Aparecem ainda, compondo a extensa lista de colaboradores, nomes como Guilherme de Almeida, José Lins do Rêgo, Murilo Mendes, Vinícius de Moraes, Henriqueta Lisboa, Graciliano Ramos, Lêdo Ivo, Emílio Moura, Lygia Fagundes Teles, Autran Dourado, José Paulo Paes, Décio Pignatari e muitos outros, com participações especiais ou inéditas como Hilda Hilst, publicada ali pela primeira vez. E ainda contava com correspondentes estrangeiros em Paris, Buenos Aires, Lisboa e nas principais capitais brasileiras. Foi publicado até maio de 1951, em treze edições bimestrais, sendo as duas últimas realizadas totalmente pelo amigo César Mêmolo Junior. “Tentativa” pode ser considerada o maior bem cultural erudito do município de Atibaia.

Ainda nesse período o grupo de artistas locais liderados por André Carneiro lançam mais três livros de poemas além de “Angulo e Face”Donozor Lino apresenta “Cartas de Marear”, que tinha a capa desenhada pelo próprio André Carneiro. César Mêmolo Junior lança “Permanência e Tempo”, com desenho na contracapa também de André Carneiro e o miolo ilustrado com linóleos de João Luiz Chaves. E por fim Dulce Carneiro, irmã de André Carneiro, com “Além da Palavra”, livro que trazia como ilustração o retrato da autora desenhada pelo amigo Aldemir Martins. Todos editados pelo Clube da Poesia, com exceção de “Cartas de Marear”. Essas iniciativas chamaram a atenção de artistas e intelectuais da época para a pequena cidade de Atibaia, a ponto de Oswald de Andrade nomear uma “Escola de Atibaia”, em associação a Escola Mineira na literatura. O artigo saiu em sua coluna “Telefonema” onde Oswald de Andrade traça elogios aos poetas locais escrevendo tratar-se do “melhor esforço de cristalização de nossa poesia atual”.

A partir de 1950 André Carneiro volta seu interesse para a fotografia, cinema e artes plásticas. Conhece artistas ligados ao Cine Foto Clube Bandeirantes como Eduardo Salvatore e passa a fotografar com regularidade. No cinema realiza o curta-metragem “Estudo de Continuidade e Movimento”, premiado no 3º Concurso Cinematográfico Nacional e recebe o Prêmio Estímulo de melhor filme gênero experimental, representando o Brasil em mostras de cinema no Reino Unido, Itália, França e Holanda. Com o amigo César Mêmolo Junior funda o "Clube do Cinema", cuja proposta era exibir e comentar filmes de arte. As reuniões ocorriam no recém-inaugurado Cine Itá.

Para fundação do Clube de Cinema a dupla contou com Aldo Bonadei, Geraldo de Barros, Lothar Charoux e Luiz Chaves para organizar a "Primeira Exposição Coletiva de Pintura de Atibaia". Foi um evento sem precedentes em cidades do interior. Para Atibaia vieram pinturas, gravuras e desenhos originais de Aldo Bonadei, Guignard, Oswald de Andrade Filho, Lothar Charoux, Frans Weissmann, Geraldo de Barros, Livio Abramo, João Luiz Chaves, Aldemir Martins, Odeto Guersoni, Carlos Scliar, Oswaldo Goeldi, Atthos Bulcão, Cicero Dias, Di Cavalcanti, Flávio de Carvalho, Flexor, Milton Dacosta, Anita Malfatti, Quirino da Silva, Maria Leontina, Sergio Milliet, Walter Levy e outros. Atualmente são poucas as instituições que podem pagar sequer o seguro dessas obras! Nesse mesmo ano foi condecorado pelo governo francês com a Medalha de Prata da Cidade de Paris, da Societe D’Education et Encouragement por suas atividades de intercâmbio cultural e cooperação artística entre Brasil e França.

Em 1951 andando numa Praça de São Paulo realiza a foto “Trilhos”.  Anos mais tarde ela foi escolhida para identificar a criação do Modernismo Fotográfico no Brasil e André Carneiro passou a ser considerado um dos precursores da Fotografia Moderna no Brasil, ao lado de fotógrafos como Thomas Farkas, Geraldo de Barros, German Lorca, Eduardo Salvatore e outros. Esta foto encontra-se em exibição permanente no Tate Gallery, em Londres. No cinema realiza os curtas “Solidão” e “Último Encontro”. O primeiro representou o Brasil no 13º Concurso Internacional de Cinema Amador, realizado em agosto de 1951, em Glasgow, Escócia, sendo depois exibido na França e Itália. Nesse ano é feito “Membre D’honneur” da Academie Ansaldi, de Paris.

De 1952 a 1960 intensifica sua produção fotográfica, quase sempre tendo a cidade de Atibaia e seus moradores em suas pesquisas estéticas. Passa a pintar com maior frequência e aproveitando de sua habilidade como exímio cortador de vidro, adquirido na Loja Recaredo, desenvolve o que chamou de "Pintura Dinâmica". A proposta pode ser associada ao que ficou conhecido como cinetismo, ou arte cinética, que foi uma corrente artística do século XX cuja principal característica foi o uso do movimento ou a ilusão do movimento. A Pintura Dinâmica consistia em compartimentos de vidros lacrados, cujo interior continham diferentes produtos químicos, que sofriam mudanças visuais quando manipuladas. A mudança ocorria em função das diferentes reações químicas. Passou também a se interessar pelo hipnotismo e a escrever contos, que mais tarde seriam classificados como de ficção cientifica.

A partir de 1960 até 1970, passa a colaborar no "Suplemento Literário", caderno semanal do jornal O Estado de São Paulo, com contos, poesias, críticas e fotografias. Dirigido por Antônio Cândido e Décio de Almeida Prado, o Suplemento tinha como preocupação a ideia de garantir na imprensa um espaço regular para o debate de ideias e a divulgação de autores novos e consagrados, especialmente os escritores brasileiros. Seus estudos e pesquisas na parapsicologia e hipnose, realizados no Instituto Quevedo e outros, ganharam destaque.

Em 1961 seu conto “O começo do Fim” foi incluído na Antologia Brasileira de Ficção Cientifica, editado por Gumercindo Rocha Dória. A partir dessa edição criou-se a chamada "Geração GRD" marco da ficção científica brasileira dos anos sessenta. Além de André Carneiro havia contos de Antônio Olinto, Rachel de Queiroz, Fausto Cunha, Dinah Silveira de Queiroz e outros. Pouco depois outro conto: “A organização do Dr Labuzze” é incluído na antologia “Histórias do Acontecerá”, também editado pelo Gumercindo Rocha Dória.

Em 1963 lança “Diário da Nave Perdida”, com capa também desenvolvida por ele e a partir dai passa a fazer inúmeras capas para livros de outros escritores, principalmente para a “Editora do Autor”. Nesse livro o conto “A Escuridão” ganhou destaque da crítica, tornando-se sua obra mais conhecida, com tradução para vários países. Muitos consideram esse conto o inspirador do romance “Ensaios sobre a Cegueira” de Jose Saramago, editado anos depois, por sua semelhança temática. A edição recebeu o prêmio de Melhor Livro do Ano, do Departamento Cultural da Prefeitura de São Paulo, além de entrar na Antologia The Best of the Year 1972, coletânea organizada por Harry Harrison e Brian Aldis lançada pela editora americana Putnan figurando ao lado de mestres internacionais. No mesmo ano lança o livro "O Mundo Misterioso do Hipnotismo". Tornou-se um dos poucos membros brasileiros do Parapsychological Association, a mais respeitada instituição internacional de Parapsicologia, com sede nos Estados Unidos.

Em 1966 publica seu segundo livro de poemas: "Espaçopleno", pelo Clube de Poesia. Mais que um livro, Espaçopleno é um objeto de arte de confecção quase artesanal. A concepção visual foi do artista plástico uruguaio Luis Díaz, que separou cada poema em folhas avulsas acondicionadas numa caixa. As xilogravuras que ilustram os poemas foram impressas no processo tipográfico que imprime um caráter único a cada exemplar. Pela importância alcançada e sua reduzida quantidade, o livro encontra-se arquivado como “obra rara” na Biblioteca Nacional. O livro recebeu o Prêmio “Alphonsus de Guimaraens”, da Academia Mineira de Letras e tem o prefácio do escritor Domingos Carvalho da Silva. No mesmo ano publica seu segundo livro de ficção cientifica: “O Homem que Adivinhava”, pela Editora Edart, e foi premiado como “Livro do Ano”, pela Câmara Municipal de São Paulo.

Em 1967 publica “Introdução ao Estudo da Science Fiction”, pelo Conselho Estadual de Cultura. Esse ensaio foi o primeiro estudo em português apresentando e discutindo alguns dos principais temas relacionados à ficção científica e recebeu o Prêmio Literário Câmara Municipal de São Paulo.

Em 1969, dirigiu os trabalhos no histórico “Simpósio de FC”, um evento integrante do 2º Festival Internacional do Filme, organizado por José Sanz, que aconteceu no Rio de Janeiro, com promoção do Instituto Nacional do Cinema, do Ministério da Educação e Cultura e da Secretaria de Turismo do então Estado da Guanabara. As palestras e exibições de filmes do Simpósio aconteceram no Teatro Maison de France. André Carneiro contava com orgulho ter assistido ao filme "Metrópolis" ao lado de Fritz Lang, assim como "2001 – Uma Odisseia no Espaço" ao lado de Arthur C. Clark, convidados do Festival, entre outros grandes nomes da literatura mundial de ficção cientifica, como Alfred Bester, John Brunner, Harry Harrison, A.E. Van Vogt, Frederick Pohl, Brian Aldiss, Poul Anderson, Harlan Ellison, Robert A. Heinlein, Damon Knight e Forrest Ackerman.

Em 1970 foi Diretor de Cultura e Turismo da Prefeitura de Atibaia, na gestão do Prefeito Olavo Amorim Silveira onde trabalhou junto ao Governo de Estado a imagem de Atibaia como cidade turística. São dessa época uma série de cartazes, programas e objetos promocionais que foram distribuídos pelo país. Participou ativamente na implantação da "Feira de Produtos e Artesanato" que ficava na entrada da cidade e realizou mudanças estruturais no maior evento cultural da época: O "Encontro de Artes Plásticas", introduzindo o Prêmio Aquisitivo, gerando um rico acervo a cidade.
A partir de 1971 passa a ser diretor de propaganda da Companhia Cacique de Café Solúvel, onde dirigiu o lançamento do Café Pelé, fez inúmeros comerciais para a televisão e curtas metragens, dirigindo celebridades como Pelé e o piloto Émerson Fittipaldi.

Em 1972 deixa Atibaia para morar em São Paulo, onde fica até 1999 quando muda para Curitiba, cidade onde faleceu em 2014. André Carneiro viveu 92 anos de intensa produção artística. Após sua saída de Atibaia publica: “Manual de Hipnose”; “Piscina Livre”; “Pássaros Florescem”; “Amorquia”; “A Máquina de Hyerônimus”; “Quânticos da Incerteza”; “André Carneiro: Fotografias Achadas, Perdidas e Construídas”, além de “O Teorema das Letras” e “André Carneiro Fotografias” (póstumas). Suas obras foram traduzidas para 16 países, tema de mestrado e estudos em inúmeras universidades no Brasil e no exterior. Produziu roteiros para cinema e televisão. Fez colagens, esculturas e fotografias, mesmo com a pouca visão dos últimos anos de vida. André Carneiro deixou para Atibaia e para o país um enorme legado cultural e um exemplo de vida: Seu profundo entusiasmo pela vida, pela arte e pelos encantos do mundo.

Márcio Zago - Fundador do Garatuja e curador da Semana André Carneiro 

domingo, 14 de janeiro de 2018

André Carneiro e a literatura em Atibaia

Publicações dos poetas locais...












No final da década de quarenta e inicio de cinquenta  Atibaia viveu um momento de grande efervescência literária. Consequência do movimento cultural de vanguarda iniciado no período pós-guerra que tinha André Carneiro como seu principal mentor. O mundo deixava para trás as agruras da 2ª Guerra Mundial e o clima era de esperança. Atibaia, recém-transformada Estância Hidro-Mineral, contava na época com cerca de 25.000 habitantes, sendo somente 7.000 moradores da zona urbana. Nesse contexto um grupo de jovens artistas, de olho nas novas correntes intelectuais europeias, propunha colocar a provinciana e conservadora cidadezinha no mapa do mundo. E conseguiram!

O grupo, além de André Carneiro, tinha entre seus componentes as irmãs Dulce, Maria Francisca, Odila e Odete Carneiro. Tinha ainda César Mêmolo Junior e seus primos Elisa Helena, Maria Amélia e Amadeu Lana. Luiza Lima de Oliveira Chaves e João Luís Chaves completavam o grupo. Outros artistas também se juntaram a eles por determinado tempo, como Oswaldo Barreto Filho e Aldemir Martins. Uma das características desses jovens era atuar em diversas áreas: literatura, cinema, fotografia e artes plásticas. Em todas deixaram importantes legados que gradativamente vem à tona, revelando e afirmando a importância dessas ações como fundamentais na formação da identidade cultural do município. Se hoje Atibaia é conhecida e reconhecida por suas ações culturais, muito se deve a esse grupo.

Na época o jornal desempenhava importante papel na divulgação da produção literária, e em Atibaia não foi diferente. “O Atibaiense”, existente desde 1901, publicava com frequência a produção dos escritores locais e também de fora, principalmente nos Cadernos de Leitura, encarte semanal que surgiu pelo fato do jornal, nesse período, pertencer ao pai de César Mêmolo Junior- escritor, poeta e um dos principais integrantes do grupo. Em 1946 surge “A Gazeta de Atibaia”, sob a direção de Helvécio Scapim, que também abria espaço a produção literária local, chegando inclusive a disponibilizar sua gráfica à edição do livro “Cartas de Marear”, de Donozor Lino.

Em 1946 André Carneiro, César Mêmolo Junior, Donozor Lino e Helvécio Scapim deram origem a um pequeno acervo literário no então existente Clube Comercial. As doações de outras pessoas engrossaram o acervo, que propunha ser aberto ao atendimento da população. O empreendimento cresceu sendo mais tarde doado à Sociedade Amigos de Atibaia, que depois transferiu a Prefeitura, originando a atual Biblioteca Publica. Em 1976 a Câmara Municipal nomeia Biblioteca Pública Joviano Franco da Silveira, em homenagem ao poeta atibaiano  e um dos fundadores da primeira Biblioteca da cidade, o Gabinete de Leitura, que existiu no inicio do século XX e que funcionava de maneira fechada, com pagamento de mensalidade dos associados.

Em abril de 1948 acontece em São Paulo, na Biblioteca Municipal, o 1º Congresso Paulista de Poesia que tinha entre os participantes Péricles Eugênio da Silva Ramos, Domingos Carvalho da Silva, Mário da Silva Brito, Geraldo Vidigal e outros. O discurso de abertura foi do crítico Antônio Cândido. André Carneiro teve intensa participação nos debates, fato que chamou a atenção de Oswald de Andrade, também presente no evento. A partir daí tornaram-se grandes amigos, passando Oswald de Andrade a visitá-lo com frequência em Atibaia. Na ocasião André Carneiro foi eleito Secretário do 1º Congresso Paulista de Poesia. No mês seguinte, por deliberação do próprio Congresso, foi criado em São Paulo o Clube da Poesia, que tinha em seus quadros importantes expoentes da poesia moderna como José Geraldo Vieira, Sérgio Milliet, Menotti Del Picchia e outros. O poeta e ensaísta Cassiano Ricardo foi eleito Presidente e anos depois André Carneiro seria Diretor de Divulgação do Clube da Poesia que tinha a proposta de promover conferências, cursos e publicações.

Pouco depois André Carneiro e o grupo de artistas locais organizam o Clube de Poesia de Atibaia, associado ao Clube de Poesia de São Paulo. Oswaldo Barreto Filho foi escolhido Presidente. Oswaldo Barreto foi outro jovem artista da cidade bastante atuante na área cultural, dedicando-se mais tarde inteiramente ao teatro onde ganhou projeção na área. O intercambio rendeu inúmeros frutos. Em agosto de 1948 o Clube de Poesia local, o jornal O Atibaiense e o Ginásio Atibaiense promovem um recital de poesia trazendo para cá uma caravana de intelectuais paulistas filiados ao Clube de Poesia de São Paulo. Estiveram presentes Oswald de Andrade, José Geraldo Vieira, Aldemir Martins, Jamil Almansur Haddad entre outros. O evento aconteceu no Salão Nobre do recém-inaugurado Ginásio Atibaiense (hoje Escola Major Juvenal Alvim).

Em 1949 é lançado o encarte literário “Tentativa”, rodado na gráfica do Jornal O Atibaiense.  Só ele bastaria para destacar a cidade como importante polo cultural da época no segmento da literatura, e não só da região, pois sua fama extrapolou as fronteiras nacionais.  Inacreditavelmente “Tentativa” reuniu em nossa cidade o que havia de mais significativo na literatura nacional mesclando autores consagrados aos novos expoentes que hoje fazem parte da cultura nacional. Exemplos não faltam: Sérgio Milliet, Murilo Mendes, Otto Maria Carpeaux, Guilherme de Almeida, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Vinicius de Moraes, Lygia Fagundes Telles, Décio Pignatari, Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Goulart e tantos outros. É bom destacar que a participação de muitos desses artistas não foram meramente formais, mas com envolvimento e paixão. Pela importância que teve no meio literário nacional o jornal Literário “Tentativa” pode ser considerado nosso maior patrimônio cultural erudito. Sua importância está ligada ao fato de ser um legítimo representante da chamada Geração de 45, ou a terceira geração modernista.

Ainda nesse período foram lançados quatro livros de poesias na cidade: Em julho de 1949 André Carneiro lança o livro “Angulo e Face”, com desenho na contra capa de Aldemir Martins. Cinco meses depois foi a vez de Donozor Lino com “Cartas de Marear”, que tinha a capa desenhada pelo próprio André Carneiro. No ano seguinte, 1950, foi César Mêmolo Junior que lançou “Permanência e Tempo”, com desenho na contracapa também de André Carneiro e o miolo ilustrado com linóleos de João Luiz Chaves. E por fim, em 1953, Dulce Carneiro, irmã de André Carneiro, com “Além da Palavra”, livro que trazia como ilustração o retrato da autora desenhada pelo amigo Aldemir Martins. Todos editados pelo Clube da Poesia, com exceção de “Cartas de Marear”. Nos Cadernos do Clube de Poesia, além dos autores citados, foram publicados outros escritores iniciantes na época, como Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Paulo Vanzolini e outros.

Essas iniciativas chamaram a atenção de artistas e intelectuais da época para a pequena cidade de Atibaia, ao ponto de Oswald de Andrade nomear uma “Escola de Atibaia”, em associação a Escola Mineira na literatura. O artigo saiu em sua coluna “Telefonema”, publicado entre 1944 e 1954, no Correio da Manhã, onde Oswald de Andrade traça elogios aos poetas locais escrevendo tratar-se do “melhor esforço de cristalização de nossa poesia atual”.

São fatos como esses que atestam e afirmam a importância de André Carneiro para o município e justifica plenamente o novo espaço cultural levar seu nome. Trata-se de uma justa homenagem. André Carneiro deixou como legado a identidade cultural do município associado ao que de melhor se produziu no país. Poucas são as cidades que tem esse privilégio. Cabe aos artistas, homens públicos e a população em geral preservar e dar continuidade a esse conceito. Mais que cultura, o que queremos é cultura de qualidade!

Márcio Zago, fundador do Garatuja e curador da Semana André Carneiro.
Artigo publicado nos jornais O Atibaiense e Jornal da Cidade dia 13 de janeiro de 2018