quinta-feira, 21 de abril de 2016

Curta-metragem Solidão, de André Carneiro, completa 65 anos.




















Entre milhares de imagens que passam diariamente pela tela do meu computador, uma me chamou a atenção. Nela um homem lê jornal indiferente à mulher que costura. Imediatamente lembrei do filme Solidão, de André Carneiro. Na imagem, que desconheço autor e data de realização, uma cena aparentemente corriqueira: Época em que a burguesia ainda não dividia seu espaço de convivência como o rádio ou a televisão. A partir dessa situação André Carneiro realiza, há sessenta e cinco anos, um curta-metragem primoroso. Mais que a sutileza temática, o que chama atenção é sua beleza plástica. Quase todo filme é rodado numa sala e aos poucos percebemos a enorme distancia entre duas pessoas tão próximas. Situação de hoje, cada qual teclando o seu celular, recolhidos e absortos. No filme os enquadramentos são belos, precisos e arrojados até hoje, revelando que por trás da câmara havia o domínio da linguagem fotográfica (André Carneiro é considerado precursor da fotografia moderna no Brasil). Numa das conversas que tive com ele perguntei sobre a influência do filme Limite, de Mário Peixoto, em seu trabalho. Curiosidade dividida com o amigo Euclides Sandoval. André desconversou, mas qualquer se fosse a resposta ela seria desnecessária: O filme fala por si, é único, original e atualíssimo.

Abaixo o comentário de Euclides Sandoval extraído de seu livro Cinema com Pipoca.

Cenas do cotidiano. Câmera detalhista. A importância do olhar, propiciando explícita leitura por quem assiste. Olhar e gestual em primeiríssimos planos. Escritor, fotógrafo e artista plástico, linguagens de André num mesmo concerto. Rostos, enquadramento cortado, objetos também, fotogramas personalizados. Não há sobras no silêncio literal do filme, silêncio igualmente sugerido. Eloquente. Pequeno acidente interrompe o vazio na relação homem, mulher. Marido e esposa? Antes, ele lia o jornal, indiferente à mulher costurando com linha e agulha manual. A atenção do homem se desvia numa evidente censura. Exercício psicológico e de documentação do cotidiano, os filmes de César Mêmolo e André Carneiro. A linguagem é essencial, simples, signos plenos de conotação. A relação entre coisa, pessoa ou objeto, mais importante do que a pessoa que representa e a ideia-conceito. Pode-se trabalhar com o não-atores, como fez Mário Peixoto em Limite. Contexto, linguagem o que mais importa. Forma originária de fazer cinema, em que prevalece um senso comum apurado.



segunda-feira, 18 de abril de 2016

Trilhos, de André Carneiro, é exposta no MON Museu Oscar Niemeyer, de Curitiba.

Na foto Mauricio Carneiro, filho de André Carneiro.



















A partir da década de 1920 existiu uma rede internacional de comunicação que funcionou à perfeição, onde se trocavam cartas, fotos, catálogos e, principalmente, ideias e informações úteis aos alquimistas revolucionários e precursores dessa nova fotografia. Graças ao movimento fotoclubista e à sua eficiente rede de comunicação, amadores da fotografia de diversas partes do Brasil puderam construir suas imagens livres dos padrões rigorosos do realismo fotográfico ao qual a fotografia havia se submetido desde o início. Esse texto é parte do catálogo da exposição Fragmentos – Modernismo na fotografia brasileira, que aconteceu na Galeria Bergamin em 2007, com curadoria de Iatã Cannabrava.  A unidade das imagens presentes nessa exposição vinha do fato de todos os fotógrafos pertencerem ao movimento fotoclubista brasileiro, lançado no final da década de 1930, e que iria marcar o inicio da fotografia moderna no Brasil. Nosso maior artista, André Carneiro, estava lá. Atento com o que acontecia a sua volta André Carneiro passa, nos anos cinquenta, a integrar-se ao movimento: Eu morava em Atibaia, anos depois descobri que existia o Foto Cine Club Bandeirante, cujos sócios ganhavam prêmios em exposições estrangeiras. Daí a pouco, ao lado de Eduardo Salvatore e outros mestres, saíamos juntos para fazer fotos artísticas exclusivamente… Desse período é a foto Trilhos, que marca sua produção e qualifica André Carneiro como precursor da fotografia moderna no Brasil. A partir dessa mostra da Galeria Bergamin, surge a exposição Moderna Para Sempre – Fotografia Modernista Brasileira na Coleção Itaú, também com a curadoria de Iatã Cannabrava e promovida pelo Itaú Cultural para celebrar o aniversário de São Paulo, lançando ao público o olhar de artistas modernos que registraram o crescimento, a urbanização e a transformação da metrópole. Essa mostra percorreu vários estados e diferentes países como Estados Unidos, Espanha, França, Alemanha, Suíça, etc e chega agora em Curitiba, cidade onde André Carneiro morou nos últimos anos de sua vida. São 132 obras de 31 artistas como José Yalenti, José Oiticica Filho, Geraldo de Barros, Marcel Giró, Thomaz Farkas, German Lorca, Ademar Manarini, Paulo Pires e outros. A exposição que acontece desde o dia 7 de abril vai até 24 de julho no MON – Museu Oscar Niemeyer, museu inaugurado em 2002 e que logo se transformou em ícone de Curitiba. Para quem mora em Atibaia, a obra fotográfica de André Carneiro poderá ser vista mais uma vez no segundo semestre de 2016, quando acontece a Terceira Semana André Carneiro. Na ocasião, se tudo der certo, será lançado um livro exclusivamente voltado ao trabalho fotográfico de André Carneiro editado pela Secretaria de Cultura do Paraná. Haverá ainda o lançamento de outro livro que reúne os romances Piscina Livre e Amorquia, além de poemas e contos do escritor. Esse livro tem a edição de Silvio Alexandre e também será lançado em Atibaia.

Trilhos, 1951 - Tinta mineral sobre Premiun Luster Photo Paper.