sábado, 21 de abril de 2018

Dulce Carneiro, a desconhecida artista de Atibaia.

Dulce Carneiro na foto de Tufy Kanji - 1958






































De 05 a 11 de maio acontece a quinta edição da Semana André Carneiro - realização da Secretaria de Cultura e Eventos de Atibaia e do Instituto Garatuja. A grande homenageada será Dulce Carneiro, artista falecida em fevereiro desse ano. Dulce foi à última expoente do movimento cultural de vanguarda formado no final da década de quarenta em Atibaia. Escritora, fotógrafa e jornalista de moda, Dulce participou ativamente dos acontecimentos culturais daquele período. Embora jovem, teve importância fundamental na criação de inúmeras ações que deixaram sua marca na formação cultural do município. O pintor Aldemir Martins, em inicio de carreira e também participante desse movimento descreve seu primeiro contato com ela: Como os artistas acabam se encontrando, conheci a Dulce Carneiro. Uma menina linda de vestido de crochê, falando francês e inglês, familiarizada com os grandes movimentos artísticos do mundo. Uma intelectual. Qualidades que também chamaram a atenção de Oswald de Andrade. Em sua coluna “Telefonema”, que mantinha no jornal carioca Correio da Manhã, publica em outubro de 1949: Como ficou a escola mineira na nossa literatura, ficará sem dúvida, o que eu chamo de Escola de Atibaia, o melhor esforço de cristalização da nossa poesia atual. Parece fábula, mas não é. No cocuruto da Serra do Juqueri (esse nome indica a capital da loucura paulistana), no minúsculo burgo de Atibaia, três poetas existem. São eles: Dulce e André Carneiro e César Mêmolo Junior. Para aí um ano atrás fomos arrebanhados pelo Clube da Poesia num show de que foi astro José Geraldo Vieira. Desde então o nosso contato com os três poetas tem sido contínuo. E verificamos que, particularmente Dulce Carneiro é dotada de uma excelsa capacidade de poesia... Ainda em 1949 os três poetas lançam em Atibaia o Jornal Literário Tentativa, nosso maior patrimônio cultural erudito. Embora liderado pelo irmão André, sete anos mais velho, Dulce teve participação ativa em sua produção. Oswald de Andrade dedica a ela sua apresentação nesse jornal: Minha doce poetisa Dulce Carneiro: Vou tentar explicar a você para que você tente explicar aos outros que em vão tentei encartolar uma apresentação de revista. De modo que se você quiser, publique esta carta que me desobriga de qualquer outro prefácio à obra polêmica e lírica que querem vocês tentar. De Atibaia, guardo primeiro você. Depois, a torre espigada e nos hotéis de veraneio, o short largo de uma funcionária em férias... E arremata O Brasil possui um grande poeta – Cassiano Ricardo. E uma poetisa – você!. Em 1953 Dulce Carneiro publica Além das Palavras, livro editado pelo Clube da Poesia. Na contra capa um desenho de Aldemir Martins e a apresentação: Entre os nomes de maior prestígio que formam o grupo dos poetas novíssimos de São Paulo, destaca-se o de Dulce Carneiro, jovem integrante da reduzida e brilhante equipe que editou, durante dois anos, em Atibaia, o periódico literário “Tentativa”. Filha dessa pequena e recatada cidade, Dulce Granja Carneiro não se conformou com os estreitos limites que, em geral, oferece o ambiente provinciano dos municípios do interior. Seguindo os passos do irmão, o poeta André Carneiro, começou logo depois da publicação dos seus primeiros poemas a participar da vida social e literária da Capital de São Paulo.... Nos fins dos anos cinquenta Dulce mantinha a coluna “Uma Crônica por mês” no jornal O Estado de São Paulo. Numa delas revela sua segunda paixão: a fotografia. Influenciado pelo irmão André, aos onze anos começa a fotografar e aos trinta se profissionaliza. Extremamente técnica, especializou-se em fotografia portrait de grandes empresários, homens de negócios, artistas, políticos e demais personalidades. Outra especialidade de Dulce Carneiro foi à fotografia de arquitetura e engenharia de grandes obras como hidrelétricas, usinas siderúrgicas, usinas nucleares, minas de carvão, fábricas etc. Numa entrevista concedida ao Museu da Imagem e do Som, externou certa resistência à postura do “fotografo de parede”, forma que usava para definir a fotografia de autor, ligada somente a questão estética. Considera-se uma “operária” da fotografia e não fazia distinção entre sua profissão ao dos engenheiros e trabalhadores braçais das obras que fotografava. Com eles subia escadas, andaimes e comportas em busca da melhor imagem. Dulce Carneiro foi bastante conhecida, conceituada e requisitada na área, além de ser uma das primeiras a romper a hegemonia masculina dos grandes fotógrafos brasileiros. Nos anos cinquenta já ingressa no Foto Cine Clube Bandeirante, ambiente majoritariamente masculino. O Foto Cine Clube Bandeirante, existente desde 1939 surgiu da necessidade a burguesia paulistana criar um ambiente de distinção em relação a crescente popularização dos meios fotográficos que vinha do desenvolvimento industrial. Esteticamente havia uma preocupação em “ser diferente” do que era produzido de forma mais “popular”. A Intenção era aproximar-se ao máximo a fotografia das “Belas Artes”, retirando seu caráter de produção mecânica, interferindo diretamente na cópia fotográfica, aplicando manualmente um toque “artístico” e único a cada foto. Era a chamada estética pictorialista. Quando Dulce Carneiro, assim como seu irmão André, conheceram o Foto Cine Clube Bandeirante a proposta já era outra. Influenciados pelos movimentos de vanguarda da Europa e Estados Unidos, aos poucos o pictorialismo foi dando lugar ao surgimento da fotografia moderna no Brasil, principalmente através da chamada “Escola Paulista” que aconteceu no interior do Cine Foto Clube Bandeirante. Esse grupo era formado por jovens fotógrafos abertos a novas possibilidades expressivas, que viam a fotografia como um meio de expressão autônoma, tanto formal como estética. Faziam parte: Geraldo de Barros, José Yalenti, Tomas Farkas, German Lorca, Gaspar Gasparian e Eduardo Salvatore. André Carneiro e Dulce Carneiro também integravam o grupo. Gestrudes Altschul foi a primeira mulher a integrar o Escola Paulista de Fotografia. A partir de 1950 começa a surgir uma participação maior das mulheres nos boletins editado pelo Foto Cine Clube Bandeirante. Dulce Carneiro passa a assinar a sessão Inquérito – Intelectuais brasileiros respondem: Fotografia é Arte? Essa sessão propunha aproximar a elite intelectual brasileira da arte fotográfica. A primeira entrevista foi com José Geraldo Vieira. Dulce Carneiro tinha ainda outra paixão: A moda. Suas matérias eram publicadas no jornal O Estado de São Paulo, nos anos sessenta. Dulce, ao contrário do irmão André, mudou cedo de Atibaia. Faleceu na cidade de São Sebastião e não deixou filhos. Negativos fotográficos, recortes de jornais e outras memórias de sua produção artística foram destruídos por ela. Quase nada sobrou de uma vida dedicada à arte e a cultura, agora só revelada pelos curiosos pesquisadores que se propuserem a desvendar os encantos e os mistérios da alma humana.

Matéria publicada no ornal O Atibaiense de 21 de abril de 2018
Márcio Zago – Fundador do Garatuja e curador da Semana André Carneiro.

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