domingo, 11 de setembro de 2016

Mostra O Cinema Nacional de Ficção Científica e Mostra Linxfilm

Na edição passada a filmografia de ficção cientifica nacional ganhou destaque na programação da Semana André Carneiro. Foram apresentados filmes raros e cultuados como Quinto Poder de Alberto Pieralise e Alguém, de Júlio Silveira. Nessa 3ª edição a mostra O Cinema Nacional de Ficção Científica continua com os filmes O Efeito Ilha e Parada 88. Essa proposta está presente em função do homenageado ter estreita ligação com o tema. André Carneiro é considerado o mais importante escritor nacional de ficção cientifica. No Brasil houve poucas produções cinematográficas voltadas ao tema, daí a importância dessa mostra, que oferece um pequeno panorama do que foi produzido nas décadas de sessenta, setenta e oitenta e noventa, percorrendo diferentes leituras do imaginário do futuro. Em seguida acontece a Mostra Linxfilm. Esse evento é uma homenagem ao trabalho de César Mêmolo Júnior. César foi integrante do movimento cultural ocorrido na dedada de quarenta, em Atibaia, que culminou em importantes realizações que perduram até hoje, como a criação da Biblioteca Pública e do jornal literário Tentativa. Seu trabalho literário, mais tarde, deu lugar ao interesse pelo cinema. Foi assistente de direção do filme Candinho, de Mazzaropi, logo em seguida passa a trabalhar com Adolfo Celi. Ganha um concurso e vai pra Itália estudar no Centro Sperimentale de Cinematografia, em Roma. Volta pro Brasil e dirige o longa-metragem Osso, Amor e Papagaio. Em 1957 monta em São Paulo a produtora Lynce Filmes, especializada em comerciais para televisão. O nome propunha dar continuidade à tradição dos negócios paternos em Atibaia, cujo nome era Lynce Ltda. Mais tarde a Lynce Filmes foi renomeada Linxfilm tornando-se a mais importante produtora da época. Com o sucesso obtido na atividade da propaganda, a Linxfilm, por influência de César Mêmolo Júnior, volta-se para a produção cinematográfica. Foram dez produções: Vozes do Medo (1070), O Predileto (1975), O Seminarista (1976), Contos Eróticos (1977), As Filhas do Fogo (1978), Diário da Província (1978), O Sol dos Amantes (1979), Ato de Violência (1980), Alguém, (1980) e O Homem do Pau Brasil (1981). Destaque para o filme O Seminarista, lançado comercialmente em Atibaia, e Alguém, roteiro baseado no conto O Mudo, de André Carneiro. Alguns desses filmes irão ser exibidos na Mostra Linxfim.

Programação

O Cinema Nacional de Ficção Científica


Dia 17 de setembro - Sábado - 19 horas no IAC Garatuja
O Efeito Ilha - 1994 - Direção de Luis Alberto Pereira

Após a descarga elétrica provocada pela queda de um raio em noite de forte tempestade, João William perde os sentidos para, depois de acordar, se ver prisioneiro de um insólito fenômeno: sua vida passa a ser transmitida 24 horas por dia pela TV. Para o desespero dos telespectadores que, em plena Copa do Mundo de Futebol, não conseguirão acompanhar os jogos da seleção: simultaneamente todos canais passam a transmitir os detalhes indiscretos do dia-a-dia da vida do protagonista por meio de alguma câmera  oculta onisciente e onipresente. Assim como o conto Escuridão, de André Carneiro, tem todos os elementos para provar sua condição de plagiado no livro Ensaio sobre a Cegueira, de Saramago, pode-se dizer o mesmo do filme O Efeito Ilha, de Luís Alberto Pereira, em relação ao filme Show de Truman, de Peter Weil. O filme antecipou em alguns anos o tema das consequências da exposição midiática da vida privada, via reality shows da vida. Só por esse motivo já vale a pena ser visto.


Dia 18 de setembro - Domingo - 19 horas no IAC Garatuja
Parada 88 – Limite de Alerta - 1970 - Direção de José de Anchieta

Os moradores da cidade de Parada 88, contaminada no ano de 1994 devido a explosão do reator de uma indústria química, vivem em túneis de plástico, único meio de vida que pode garantir sua sobrevivência, já que o oxigênio, que tornou-se um bem de consumo. Certo dia, Joaquim ganha um sorteio que lhe dá dinheiro suficiente para pagar pelo seu oxigênio e o de sua família; mas, para pegar o prêmio, ele precisará ir até as ruínas da fábrica para coletar notícias de um grupo de aventureiros especialistas em contaminação postados no local. As criticas ao filme recaem em relação às falhas no roteiro, mas vale a pena ser visto pelo inusitado do tema e pelo fato de ser esse o primeiro filme assumidamente de ficção cientifica nacional com ares cyberpunk e pós apocalíptico. Segue uma chamada no Fantástico, de 1977.



Mostra Linxfilm

Dia 19 de setembro - Segunda - 19 horas no IAC Garatuja
Osso, Amor e Papagaio - 1957 - Direção de César Mêmolo Júnior e Carlos Alberto de Souza Barros.

Os habitantes de Acanguera têm o hábito de empinar papagaio todas as tardes. Um dia, durante uma festa em que o povoado festeja a paz política entre o prefeito e o líder da oposição, morre o coveiro. Escolhendo seu sucessor, prefeito e oposição brigam outra vez. Daí por diante, começa a morrer tanta gente que há dois a três enterrados por dia no pacato povoado. Surge então um personagem estranho, todo vestido de preto. As especulações crescem em torno do homem misterioso. Mas o segredo que aquele estranho homem carrega vai deixar a todos completamente impressionados e vai virar a vida da cidade de cabeça para baixo. O roteiro é uma adaptação do conto A nova Califórnia, de Lima Barreto. O filme é considerado um clássico da comédia nacional e tem direção de César Mêmolo Junior e Carlos Alberto de Souza Barros.


Dia 20 de setembro - Terça - 19 horas no IAC Garatuja
As Filhas do Fogo - 1978 - Direção de Walter Hugo Khouri

Ana, jovem estudante de São Paulo, chega a Gramado, RS, para visitar sua amiga Diana, que mora numa mansão com dois empregados e uma governanta. A mãe de Diana morreu há alguns anos e seu pai, viajando frequentemente, pouco permanece em casa. Passeando pelos bosques da mansão, Ana e Diana encontram Dagmar, uma vizinha que se dedica à Parapsicologia, realizando experiências para captar vozes de pessoas mortas. Após o encontro, as amigas passam a viver estranhas situações. Um mendigo, que procurou a casa em busca de trabalho e comida, aparece morto no bosque. Convidadas para um baile na casa de Dagmar, Ana e Diana encontram a anfitriã na companhia de Sílvia, a falecida mãe de Diana. Durante a festa Ana morre misteriosamente e Diana, desesperada, mata Dagmar. Tentando fugir da casa, Diana encontra as portas trancadas e as janelas tomadas por estranha vegetação. Quando o dia amanhece, a casa está repleta de folhagens, incorporada à Natureza e ao espetáculo da vida e da morte.


Dia 21 de setembro - Quarta - 19 horas no IAC Garatuja
O Seminarista - 1977 - Direção de Geraldo Santos Pereira

Pelos idos de 1920, no interior de Minas Gerais, uma grande amizade de infância une Eugênio e Margarida. Eugênio tem 13 anos e é filho do Capitão Antunes, dono de uma bela fazenda nos arredores de Ouro Preto; Margarida vive na fazenda e é filha de uma viúva agregada. Mas os pais de Eugênio querem ver o filho padre e enviam-no para o Seminário do Caraça. Ele sofre com a mudança, principalmente por causa de Margarida. Dedica-lhe ardentes versos de amor, que provocam a reprimenda dos padres. Anos depois, Eugênio volta e seu encontro com Margarida é emocionante. Ela é agora uma linda moça e eles se entregam de corpo e alma a uma desvairada paixão, e o Capitão sugere que Margarida se case. Como a moça recusa, tem de abandonar a fazenda em companhia da mãe. Eugênio, depois de ordenado, volta para casa e toma conhecimento de tudo. Celebra sua primeira missa e deixa a batina para sempre. O filme foi baseado no livro O Seminarista de Bernardo Guimarães e teve seu  lançamento em Atibaia, em 1976.


Dia 22 de setembro - Quinta - 19 horas no IAC Garatuja
Vozes do Medo – 1969 a 1973 – Vários diretores

A juventude paulistana de 1970, seus medos, angústias, incertezas, anseios sociais e filosóficos, focalizada em episódios organizados de maneira de uma revista: ensaio, crítica,crônica, inquérito, reportagem, história em quadrinhos, depoimento. Os 12 diretores mesclam cinema-atualidade com ficção, desenho animado, realismo fantástico e uma infinidade de outras tendências e manifestações caracterizadas pela livre expressão do pensamento. Um mural sobre o Brasil da década de 70. Uma experiência de liberdade. Primeiro filme da produtora Linxfilm, Vozes do Medo, foi uma ousadia para a época, período bravo da ditadura militar. Aloysio Raulino (fotógrafo do documentário Oi Lá no Céu!, do Instituto Garatuja) conta numa entrevista: era um filme enorme, tinha quase três horas de duração, com muitos episódios, uma produção bastante ambiciosa. (...) o César Mêmolo foi a pessoa que comprou a ideia de uma maneira muito corajosa para a época, muito rara para a época, por ser a Lynxfilm uma produtora grande de publicidade, sem o perfil de produção independente... Imperdível.

sábado, 10 de setembro de 2016

André Carneiro Fotografias

Bebês adoram ovos para jogá-los no chão. Ovos partidos são lindos, mostram a cor do nascimento e, um pouco mais tarde, a bela plumagem... Com essa analogia, utilizando a fotografia como possibilidade de visualizar o mundo em evolução, o autor inicia o livro André Carneiro Fotografias. Iniciativa de Maurício Carneiro, que viveu muitos anos com o pai em Curitiba, cidade onde trabalha como clarinetista da Orquestra do Paraná. A cumplicidade transparece na criteriosa escolha das imagens, nos textos, no carinho e respeito da produção. Seu irmão Henrique Carneiro também está no livro e relata a possibilidade da fotografia como construção de resultado e veículo do sensível, como ensinou o pai. O fotógrafo João Urban, que faz a apresentação e orientação na curadoria, reforça a indagação que fazemos ao conhecer a diversidade e qualidade da obra de André. Por que ele ainda não é conhecido e reconhecido como merece? Difícil achar respostas. No livro, a dúvida ganha força. Imagens arrebatam principalmente pela beleza plástica, pinçadas pelo olhar privilegiado do André ao compor com elementos tão simples. Aí está sua genialidade. Soluções estéticas admiráveis, que trazem a visível preocupação na construção do resultado, lembrado pelo filho Henrique. Atibaia está muito presente no livro, seja no olhar da criança congadeira defronte aos brinquedos, seja no piso de paralelepípedos, tão familiar aos moradores da cidade. O fato de o lançamento acontecer aqui, com exclusividade, e durante a Semana André Carneiro na 3ª edição, preenche uma laguna em relação à distância entre o autor e sua terra natal. Aos poucos Atibaia descobre as muitas facetas de seu filho talentoso. Mais que conhecido, André e sua obra, tem de ser degustado, com a calma e o requinte frente aos melhores vinhos. O livro permite isso: Mais que conhecer, se encantar.

O livro André Carneiro Fotografias foi editado através da Lei de Incentivo da Fundação Cultural de Curitiba e tem apoio da Caixa Econômica Federal. Será lançado em Atibaia dia 16 de setembro, sexta feira, às 20 horas, no Centro de Convenções Victor Brecheret, na abertura a 3a Semana André Carneiro. A Semana André Carneiro é uma realização do Instituto de Arte e Cultura Garatuja e da Prefeitura da Estância de Atibaia, através da Secretaria de Cultura e Eventos. Saiba mais.





quinta-feira, 8 de setembro de 2016

A Semana André Carneiro será oficializada.

Márcio Zago, curador da Semana André Carneiro, fazendo
uso do espaço Tribuna Livre, na Sessão da Câmara.
Teve inicio no último dia 05 de setembro a Mostra A Arte Fotográfica de André Carneiro no saguão da Câmara Municipal de Atibaia. Ela abriu a programação da 3a Semana André Carneiro e contou com a colaboração do jornalista Luiz Gonzaga Neto. A abertura oficial da Semana acontece dia 16 de setembro, sexta-feira, às 20 horas no Centro de Convenções Victor Brecheret. A mostra da Câmara fez enorme sucesso na edição passada, sendo uma oportunidade para quem perdeu ou quer rever o que de melhor se produziu na região. André Carneiro tinha uma visão privilegiada para a fotografia, atividade que exerceu durante toda vida. Seu nome figura entre os precursores da Fotografia Moderna no Brasil, ao lado de fotógrafos brasileiros consagrados como Thomas Farkas, Geraldo de Barros, German Lorca, Eduardo Salvatore, Chico Albuquerque, Madalena Schwartz, José Yalenti, entre outros. As imagens integram o livro Fotografias Achadas, Perdidas e Construídas, lançado em 2009 pelo editor Valdir Rocha e revela situações por trás das fotos, além de causos e histórias sobre o tema. Em muitas delas Atibaia é cenário e antigos moradores os protagonistas. Nesse dia também aconteceu a Sessão da Câmara, onde o curador da Semana, Márcio Zago, usou o espaço da Tribuna Livre para falar sobre as propostas da Semana André Carneiro e a relação do homenageado com a cidade de Atibaia. O tema foi muito bem recebido entre vereadores e público presente. No final da sessão o vereador Paulo Catta Preta (PV) se prontificou a oficializar o evento, inserindo-o no calendário cultural da cidade. Fato que contribuirá na  continuidade da proposta, oferecendo respaldo institucional e condições efetivas para pleitear dotação orçamentária do município. As limitações financeiras foram um dos fatores que impediram, até agora, a implantação da Semana André Carneiro como previsto em sua concepção original. Nela a participação dos artistas locais e regionais, através de mostras, concursos e editais, seriam de suma importância para a expansão e envolvimento da cidade em suas atividades. O curador da Semana agradece a prontidão e seriedade do vereador ao somar esforços no sentido de legitimar a importância do artista e sua obra para a cidade de Atibaia. A 3ª Semana André Carneiro tem a realização do Instituto de Arte e Cultura Garatuja e Prefeitura da Estância de Atibaia, através da Secretaria de Cultura e Eventos.


















domingo, 4 de setembro de 2016

Exposição na Câmara abre a programação da 3ª Semana André Carneiro.


























Começa nessa segunda feira, dia 05 de setembro, a mostra A Arte Fotográfica de André Carneiro. Ela pode ser vista das 8h às 17hs na Câmara Municipal de Atibaia. A iniciativa, organizada pelo Departamento de Comunicação e Escola Legislativa de Atibaia tem a frente o jornalista Luis Gonzaga Neto e integra a programação da 3a Semana André Carneiro. As fotos estão presentes no livro Fotografias Achadas, Perdidas e Construídas onde André revela situações por trás das fotos, além de causos e histórias sobre o tema. Em muitas delas Atibaia é cenário e antigos moradores os protagonistas. Essa mostra fez enorme sucesso na edição passada sendo uma oportunidade para quem perdeu ou quer rever o que de melhor se produziu na arte fotográfica da região. Escritor, poeta, cineasta e artista plástico, André tinha uma visão privilegiada para a fotografia – atividade que exerceu durante toda sua vida. Seu nome figura entre os precursores da Fotografia Moderna no Brasil, ao lado de fotógrafos brasileiros consagrados como Thomas Farkas, Geraldo de Barros, German Lorca, Eduardo Salvatore, Chico Albuquerque, Madalena Schwartz e José Yalenti, entre outros. Esses nomes foram escolhidos por uma pesquisa internacional que selecionou 24 fotógrafos considerados pioneiros na arte fotográfica modernista no Brasil, com destaque para a foto Trilhos, de 1951. Essa foto fica em exibição permanente no Tate Gallery, em Londres. No dia 16 de setembro, na abertura oficial da Semana, será aberta outra exposição: André Carneiro Fotografias contendo algumas imagens que integram o livro com o mesmo nome. Belíssima edição, iniciativa de seu filho Mauricio Carneiro, que junto com o irmão Henrique Carneiro, João Urban e o próprio André são autores dos textos iniciais. O livro será lançado com exclusividade nessa 3ª Edição da Semana, dia 16 de setembro, 20hs no Centro de Convenções Victor Brecheret - Atibaia.

Tentativa – Montando o quebra-cabeça


Pinçando aqui e ali, entre uma matéria e outra, vamos recompondo a criação do Jornal Tentativa. Segundo André Carneiro Tentativa nasceu de um conjunto de circunstâncias e coincidências, até certo ponto provocado pela censura ditatorial que cerceava a atividade dos melhores jornais do país. Houve uma grande diminuição dos Suplementos Literários dominicais e as revistas literárias praticamente desapareceram. Eu tinha 27 anos. Junto com um amigo com dez anos menos (César Mêmolo Jr.) e minha irmã Dulce Carneiro com 18, lançamos de Atibaia um jornal literário com o título de TENTATIVA, desenhado pelo grande Aldemir Martins, recentemente chegado do Norte...  Tentativa em pouco tempo ganhou projeção nacional, sendo considerado o melhor jornal literário da época. Essa importância explica-se, em parte, pelo fato de ter logo no primeiro número a apresentação de Oswald de Andrade. Como se conseguiu essa façanha? Em abril de 1948, promoveu-se o 1º Congresso Paulista de Poesia, que cunharia o termo Geração de 45 para aquela classe reunida de escritores e críticos: Sérgio Milliet, Antônio Cândido, Péricles da Silva Ramos, José Geraldo Vieira e outros. Patrícia Galvão, a Pagu, que já fora casada com Oswald, e o próprio André Carneiro, faziam-se presentes. André estava à mesa como representante do Interior. A ausência de Mário de Andrade, recentemente falecido, honrosamente foi lembrada. Não pretendiam criar polêmica com o movimento de 22, isto é mito; estavam sim reunidos para dar continuidade e firmar os passos da nova tendência literária. André mantinha-se calado diante daquelas “vacas sagradas”, ele conta. Após o último dos grandes ter falado, pôs-se a defender sua tese, ao fim da qual Oswald pediu palavra. Imaginou que por suas ironias de agudo senso seria escorraçado. Poucos ousavam enfrentar Oswald, cuja elegante verve transformava em verdade tudo quanto dissesse ou quisesse. Se a burrice pode ter sua assembleia, porque não podem os homens inteligentes aqui se reunir? Começou assim, e lançou sobre Carneiro uma carrada de elogios. Tornaram-se grandes amigos. Oswald passou a visitá-lo regularmente. Nas páginas do Tentativa desfilaram uma extensa lista de colaboradores, nomes já consagrados da literatura nacional em meio aos aspirantes. As gerações de 20, 30 e 45, foram colocadas lado a lado, muitas vezes com posições antagônicas. Sabe a ingenuidade do jogador que não sabe jogar pocker e ganha?, disse André Carneiro. Como eu não conhecia, naquela época, a complexidade de se fazer um jornal literário no Brasil, eu fiz um e fui entrevistando todo mundo e, de repente, eu tinha colaboradores como o Graciliano Ramos e Vinícius de Moraes. O primeiro time escrevia no meu jornal... Essa ideia de “acaso” é parcial. De Atibaia para Todos - Nosso jornal saindo de uma cidade de 14.500 habitantes como Atibaia, quer se libertar de um complexo de estreiteza a provincianismo. Para isso, procura que seu corpo de colaboradores reflita todos os grupos e tendências, num retrato sem preconceitos da atual agitação literária brasileira. E isso não seria possível se tentássemos apontar determinados rumos, selecionando a matéria debaixo de uma rígida orientação pré-estabelecida. A direção de Tentativa procura “não julgar”, já que nos faltam perspectivas para tanto. Vivendo isolados, confessamos sem pejo que nossas ilusões são maiores. Mas não queremos perdê-las, pois delas extraímos a força para que esta publicação continue e permaneça. Esse pequeno aviso, logo no segundo número, revela que Tentativa tinha objetivos claros e plena consciência de tempo e espaço. Foram treze números, sendo os dois últimos realizados somente pelo César Mêmolo Jr. O último, de número 13, ficou por muito tempo desaparecido, sem integrar o acervo da cidade e sem entrar na versão fac-símile publicada em 2006. A organizadora da publicação, Araceles Stamatiu, conta que foi ao Rio buscar esse último número, mas o diagramador esqueceu-se de inseri-lo na publicação. Agora, graças à generosidade do Osvaldo Duarte, é possível montar o quebra-cabeça: saberemos finalmente quem ganhou o Concurso Livro de Contos que tinha como comissão julgadora Sérgio Milliet, Antônio Cândido e Osmar Pimentel e conheceremos o texto final que sinaliza o fim de suas atividades. Para nós, atibaianos ou atibaienses, Tentativa tem um ingrediente a mais. É reconfortante imaginar que um grupo de jovens intelectuais, há mais de sessenta anos, inseriu nossa cidade no mapa do mundo. Tempo em que as ruas ainda eram de terra, sem internet e whatsapp. Com uma ousadia incomum, André Carneiro, sua irmã e um amigo, com desejo e disfarce cosmopolita, como se ao olhar com dissimulado senso de superioridade e por sobre os ombros cobrisse a cidade com o manto do sonho ofuscando nosso secular provincianismo. A partir de agora, com todos os números do Tentativa disponibilizados no site da Semana André Carneiro, estudantes, pesquisadores e demais interessados poderão conhecer nosso maior bem cultural, e com isso, quem sabe, recolocar seus criadores no merecido lugar de destaque como legítimos representantes do que de melhor se produziu em Atibaia e região, e porque não, no Brasil? Um reconhecimento tardio, mas necessário. Saiba mais.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

3ª Semana André Carneiro









Em setembro acontece a 3ª Semana André Carneiro. Sua proposta é promover a obra de um dos maiores artistas de Atibaia. André transitou por diferentes áreas da expressão humana como literatura, cinema, artes plásticas, fotografia, além de atuar na hipnose, publicidade, yoga, jornalismo, área editorial e outros. Em Atibaia foi Diretor de Cultura e grande incentivador da vocação turística do município (faceta pouco conhecida na cidade). Nessa edição o foco será o jornal literário Tentativa, que produziu entre 1949 e 1951. Tentativa foi uma experiência única no Brasil ao reunir numa pequena cidade do interior os mais importantes nomes da literatura nacional, e mesmo internacional, através de seus correspondentes em Portugal, Argentina e França. Fato comparado talvez a Revista Joaquim, de Curitiba, que circulou entre 1946 a 1948. Tentativa teve o logotipo de Aldemir Martins e apresentação de Oswald de Andrade, sendo avaliado na época como o jornal literário mais importante do Brasil. Foi tão grande a repercussão que Oswald de Andrade chegou a acalentar o sonho de formar aqui em Atibaia um centro cultural prevendo revitalizar a cultura nacional e agitar o meio artístico com debates, conferencias, etc. Sonho que nunca se concretizou. É instigante imaginar como um reduzido grupo de artistas, vivendo numa provinciana cidadezinha de 20.000 habitantes, conseguiu realizar um movimento cultural tão importante a ponto de extrapolar os limites do tempo e do espaço. Tentativa é considerada peça fundamental da terceira geração modernista: A Geração de 45. Da pequena gráfica do Jornal O Atibaiense saíram nomes como: Sérgio Milliet, Murilo Mendes, Otto Maria Carpeaux, Guilherme de Almeida, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Vinicius de Moraes, Lygia Fagundes Telles, Décio Pignatari e tantos outros. Tentativa foi uma ousadia de jovens artistas locais, ou, um sonho inverossímil realizado, como definiu o próprio André. Tentativa contou ainda com sua irmã Dulce Carneiro e César Mêmolo Jr. Esse último será homenageado nessa edição. César Mêmolo Jr. foi figura chave nas primeiras realizações de André Carneiro no inicio de sua produção: da fundação da primeira Biblioteca Pública do Município (hoje Biblioteca Municipal Joviano Franco da Silveira), a realização da primeira exposição de Arte Moderna da cidade, nas famosas Sessões Especiais de Cinema de Arte e mesmo integrando o elenco dos filmes experimentais realizados na época, como Solidão e Estudo de Continuidade e Movimento. Cesar Mêmolo Jr. também é pouco conhecido na cidade, mas assim como a André, seu trabalho extrapolou as fronteiras locais: Em 1958 fundou a Lynce Filme. O nome vinha do Hotel Estância Lynce, situado no bairro da Estância Lynce – Atibaia e pertencente a seu pai. Mais tarde foi renomeado Lynxfilm. A Lynxfilm tornou-se a mais importante produtora nacional de filmes publicitários da época e pioneira no ramo da animação comercial. Clássicos da propaganda televisiva como a animação da Varig, dos Cobertores Parayba, das Casas Pernambucanas e tantos outros são da Lynxfilm. Completando a programação da 3ª Semana André Carneiro está previsto também o lançamento de dois livros: Um que reúne os romances Amorquia e Piscina Livre, além de contos e poesias, e outro sobre o trabalho fotográfico do André, editado pela Secretaria de Estado da Cultura de Paraná. Completa a Semana exposição de fotografias e exibições de filmes. Saiba mais: http://garatujaaudiovisual.blogspot.com.br/2016/08/lynxfilm-o-atibaiano-cesar-memolo-jr-e.html


segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Espaço Pleno, uma preciosidade !




















Editado pelo Clube da Poesia, em 1966, Espaço Pleno tornou-se um dos raros trabalhos de André Carneiro. Mais que um livro, é um objeto de arte. As ilustrações são do artista plástico uruguaio Luis Díaz. No processo tipográfico, utilizado em sua confecção, as letras eram impressas através dos tipos móveis e para as ilustrações utilizavam-se clichês - matrizes de metal gravadas foto mecanicamente em relevo. Especificamente nesse livro, além da maior elaboração no uso dos tipos móveis, há outra inovação: a substituição do clichê pela xilogravura. Diferente do clichê, que tende a uniformizar a imagem, a xilogravura, pelo seu caráter artesanal, torna cada livro um objeto único. Luis Díaz elaborou xilogravuras em madeiras, com espessura de um clichê, que foram diretamente para a máquina, exigindo alguns acertos com minúsculos calços, o que resultou na produção de um livro em que todos os exemplares traziam xilogravuras originais, um fato inédito no Brasil e talvez no mundo. Esse texto faz parte da matéria Espaço Pleno – O que você não sabia, de Carlos Alberto Pessoa Rosa publicado em 2003 no jornal O Balaio. O artigo trás ainda uma entrevista que Carlos Alberto realizou com Luis Díaz. Sim, tenho as matrizes. Não dou, não vendo. Eu as amo. Foi um trabalho feito para a obra de um amigo querido...Mas a real validade do livro – claro, me refiro à forma, não a poesia do André – não está nas ilustrações, senão na diagramação, também de minha autoria. Sempre tinha me incomodado ao ler poesia à falta de ar entre uma e outra. Achava eu, e acho ainda, que cada poesia é um fato artístico isolado e que, como um quadro, por exemplo, precisa de moldura e espaço em volta. Daí ter proposto uma coisa até então, ao que me consta, inédita: que cada poesia, além de ter sua ilustração teria sua própria diagramação, com tipos e (in) paginações particulares. Desta forma, o leitor deveria descobrir também como ler cada uma (vira de um lado, vira do outro), com isso haveria certa distância e uma intimidade diferente com cada uma delas. E seriam impressas em folhas isoladas, para serem lidas abrindo da esquerda para a direita... Foi impresso o livro no papel mais pobre da época, creio que pluma, e encadernado em capa de resma sueca! Pobreza metida à sofisticada, que deu um resultado inaudito, e, em minha opinião, a vaidade que vai se coçar, muito bonito. Era amarrado no todo, com uma fita de gorgurão 25 de março, autêntica, da pontinha, se sabes o que é isso. Durante o processo de elaboração do livro foram feitas réplicas ou “bonecos” com a finalidade de conferir visualmente o resultado final, ou como  provas de impressão. Uma dessas provas está comigo. Me foi passado pelo Mauricio Carneiro e são layouts praticamente concluídos, que trazem anotações e correções de texto que evidenciam o meticuloso cuidado dedicado ao projeto. Uma preciosidade! Saiba mais clicando aqui.