Em fevereiro de 2018 morreu uma das últimas
expoentes do movimento cultural de vanguarda formado no final da década de
quarenta em Atibaia. Escritora, fotógrafa e pioneira no jornalismo de moda,
Dulce Carneiro participou ativamente dos acontecimentos culturais daquele
período. Embora jovem, teve importância fundamental na criação de inúmeras
ações que deixaram sua marca na formação cultural do município. O pintor
Aldemir Martins, em inicio de carreira e também participante desse movimento
descreve seu primeiro contato com ela: “Como os artistas acabam se encontrando,
conheci a Dulce Carneiro. Uma menina linda de vestido de crochê, falando
francês e inglês, familiarizada com os grandes movimentos artísticos do mundo.
Uma intelectual”. Qualidades que também chamaram a atenção de Oswald de
Andrade: “O Brasil possui um grande poeta – Cassiano Ricardo. E uma poetisa –
você!”. Em 1953 Dulce Carneiro publica “Além das Palavras”, livro editado pelo
Clube da Poesia. Na contra capa um desenho de Aldemir Martins e a apresentação:
“Entre os nomes de maior prestígio que formam o grupo dos poetas novíssimos de
São Paulo, destaca-se o de Dulce Carneiro, jovem integrante da reduzida e
brilhante equipe que editou, durante dois anos, em Atibaia, o periódico
literário “Tentativa”. Nos fins dos anos cinquenta Dulce Carneiro mantinha a
coluna “Uma Crônica por mês” no jornal O Estado de São Paulo. Numa delas revela
sua segunda paixão: a fotografia. Influenciado pelo irmão André, aos onze anos
começa a fotografar e aos trinta se profissionaliza. Extremamente técnica,
especializou-se em fotografia portrait de grandes empresários, homens de
negócios, artistas, políticos e demais personalidades. Outra especialidade de
Dulce Carneiro foi à fotografia de arquitetura e engenharia de grandes obras
como hidrelétricas, usinas siderúrgicas, usinas nucleares, minas de carvão,
fábricas etc. Dulce Carneiro foi bastante conhecida, conceituada e requisitada
na área, além de ser uma das primeiras a romper a hegemonia masculina dos
grandes fotógrafos brasileiros. Nos anos cinquenta ingressa no Foto Cine Clube
Bandeirante, ambiente majoritariamente masculino. Dulce Carneiro, ao contrário
do irmão André, mudou cedo de Atibaia. Faleceu na cidade de São Sebastião e não
deixou filhos. Negativos fotográficos, recortes de jornais e outras memórias de
sua produção artística foram destruídas por ela. Quase nada sobrou de uma vida
dedicada à arte e a cultura, agora só revelada pelos curiosos pesquisadores que
se propuserem a desvendar os encantos e os mistérios da alma humana.
O texto acima integrou a 5ª edição da Semana André Carneiro, realizada em 2018, que homenageou Dulce Carneiro. Agora, na 13ª edição do evento, a abertura será marcada pelo lançamento do livro “Revelar Dulce Carneiro”, da jornalista e pesquisadora Ciça Carboni. Ciça é uma das estudiosas que se debruçaram sobre a vida e a obra dessa artista singular, figura emblemática da cultura brasileira que, para nós, atibaianos, desperta interesse ainda mais profundo. Nascida em Atibaia, Dulce Carneiro permanece, em muitos aspectos, uma personagem envolta em lacunas. Para aqueles que valorizam a cultura local, se interessam pelos artistas que contribuíram para a formação do município e desejam conhecer melhor os personagens de nossa história, esta é uma oportunidade imperdível. O lançamento acontece no dia 9 de maio de 2026, às 20h, no Instituto de Arte e Cultura Garatuja e será precedido por uma palestra sobre o tema proferida pela autora. A iniciativa integra a programação da 13ª edição da Semana André Carneiro, que por questões alheias a nossa vontade não contará esse ano com a participação e apoio da Secretaria de Cultura de Atibaia. Agende e participe.

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